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Cannes! (8)/Longe do paraíso, perto da Palma

Luiz Carlos Merten

16 Maio 2015 | 20h17

CANNES – Fiquei emendando um programa no outro, mas no fim cansei. Desisti do documentário sobre Amy Winehouse, que espero recuperar amanhã. Mas consegui ver todos aqueles programas que havia assinalado no post anterior. Gosto muito de Todd Haynes e ele não me decepcionou com Carol, mesmo que, com certas similaridades, o filme não tenha me impressionado tanto quanto Longe do Paraíso, anos atrás. Lembram-se? Julianne Moore descobria o marido com outro, mas o que o próprio cara esperava é que ela reprimisse sua insatisfação e continuasse devotada ao lar, como boa esposa, mas ela prefere o escândalo e se liga ao jardineiro negro, o que, claro, gera represálias. Aqui, Cate Blanchett é casada com um ricaço, mas é lésbica, liga-se a Rooney Mara e o cara usa contra ela o poder do dinheiro – e da ‘moralidade’ – para ficar com a guarda da filha. O filme é suntuosamente filmado, Haynes tem aquele olho para a beleza e acho que, desde Luchino Visconti, ninguém usa cenografia e figurinos para criar quadros tão acurados de época. O filme passa-se nos anos 1950 e eles voltam no visual, na trilha. O desfecho é maravilhoso e, se o objetivo era levantar o público numa explosão de aplausos, deu certo, mas alguma coisa – o classicismo, certo pudor ao filmar as duas mulheres – me paralisou e eu não viajei como em outros filmes do autor, não apenas o citado Longe do Paraíso, mas também o labiríntico I’m not There, sobre Bob Dylan. Mas é forte concorrente à Palma, se bem que tenho minhas dúvidas de que os irmãos Coen possam entender ou ser sensíveis ao cinema de Haynes. Espero estar enganado. Não sei por que – não havia lido nada sobre o filme -, mas, ao saber que Miguel Gomes ia fazer as 1001 Noites me bateu que seria uma fantasia romanesca no estilo da parte ‘colonial’ de Tabu, a que mais gosto. As 1001 Noites está na Quinzena dos Realizadores – com o melhor filme que vi até agora, o de Arnaud Desplechin -, programado para passar em três partes, cada uma com duas horas. A primeira, Volume 1, como em Ninfomaníaca, foi O Inquieto. Lembram-se dos jacarés em Tabu? Miguel Gomes tem um pé no surreal e chega a explodir uma baleia, mas de resto o filme é realista no limite do depressivo, mostrando a crise que assola Portugal (como boa parte da Europa). É um filme duro, que, a se julgar pela amostra, poderá virar cult, sedimentando ainda mais o prestígio do autor. E vi, claro, A Dama de Shangai. Tenho de confessar. Nunca fiz uma crítica formal do filme de Orson Welles porque nunca o vira antes, só, em antologias de cinema ou especiais dedicados ao diretor, a célebre cena na galeria dos espelhos, que, descontextualizada. perdia o sentido, apesar do brilho. Até por isso, não queria perder A Dama de Shangai em Cannes Classics, no quadro das homenagens ao centenário de Orson Welles. Viu admitir que me decepcionei. Por maior que seja a bravura de cenas isoladas, e por mais deslumbrante que Rita Hayworth seja em sua ambiguidade, o filme tem mais defeitos que qualidades do noir e sua estrutura romanesca (marinheiro, Oriente etc) não me provocou míseros 10% do encantamento que tive quando descobri História Imortal, que Welles adaptou de Isak Dinesen, com Jeanne Moreau, e que também tem alguns desses elementos. É tarde – estou cinco horas à frente – e preciso dormir. Amanhã tenho entrevistas com Nanni Moretti e Gusa Van Sant, mas minha prioridade do dia, em Cannes Classsics, será…. Rocco e Seus Irmãos! Quem me acompanha, sabe que é o filme da minha vida. No programa, está – em presença da equipe do filme. Os sobreviventes – Alain Delon, Claudia Cardinale. Estarão aqui amanhã? Espero que sim.