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Cannes (6)/Godard! E hoje à noite tem Prince

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2016 | 11h58

CANNES – Não sou louco de não reconhecer a importância de Jean-Luc Godard, mas gostar, gostar mesmo, só de três ou quatro de seus filmes. Viver a Vida, O Desprezo e Les Carabiniers/Tempo de Guerra, ao qual Luiz Rosemberg Filho dedica seu belíssimo Guerra do Paraguay, que eu não me conformo até agora que não ganhou o Cine PE. Godard fornece o cartaz do 69º festival, uma imagem emblemático de seu deslumbrante Le Mépris, que o produtor Carlo Ponti queria que ele fizesse com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, mas Godard queria Kim Novak e terminou aceitando Brigitte Bardot. O festival, de alguma forma, retribui e, pela primeira vez desde que foi criada Cannes Classics, um filme de Godard passa na seção de clássicos restaurados. É Masculino Feminino, de 1965, com o jovem Jean-Pierre Léaud, que será visto na seleção oficial deste ano como o velho Rei Sol de A Morte de Luis XIV, de Albert Serra. Faço os maiores malabarismos para recuperar depois certos filmes da competição, mas se há coisa que não perco são alguns filmes de Cannes Classics. Esse Godard, por exemplo. Paris, preto e branco, Jean-Pierre Léaud mais Antoine Doinel do que em seus filmes com François Truffaut – ou seja, totalmente inepto com as mulheres. Como conquistar uma aspirante a cantora que grava seu primeiro disco? Isso é só um fiapo de história e, como sempre, Godard conceitualiza sobre a França conservadora (reacionária?) da época. O filme desenrola-se em 15 quadros. Tem seus momentos divertidos – ‘masculino’, observa o amigo para Jean-Pierre, é uma palavra que contém ‘mask’ e ‘ass’. E feminino? Não tem nada, mas no desfecho as letras caem e fica ‘fin’. Um letreiro informa que Masculino Feminino poderia se chamar ‘Filhos de Marx e da Coca-Cola’, caso você compreenda. Godard, há 50 anos, criticava a alienação de uma juventude que se considerava politizada. Tenho de admitir que estou ficando velho. Lembrava-me, não sei por quê, do nome da atriz, Chantal Goya, mas fiquei o tempo todo matutando quem era a outra? Nem conseguia mais prestar atenção. Marlène Jobert!, anos antes da Mélancolie de O Passageiro da Chuva, de René Clément, do tempo em que Charles Bronson ainda era bom. Masculino Feminino, restaurado em 4K, reestreia na França em julho. Jean-Thomas, da Imovision, ou André Sturm, da Pandora, bem poderia levar o filme para o Brasil. A Mostra, quem sabe? Agora chega. Tenho de ver o Ken Loach, I, Daniel Blake. E, à noite, no Cinema da Praia, Cannes paga tributo a… Prince, exibindo Purple Rain, de Albert Magnoli.