As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cannes (6)/As voltas que o mundo dá

Luiz Carlos Merten

18 Maio 2017 | 20h09

CANNES – Dei hoje uma olhada no noticiário. Pelo visto, saí de Um Brasil e vou voltar em outro. Saí do Brasil fictício, de gente que se fingia de bem, e vou voltar no real. Muito interessante. Nada realmente novo ou surpreendente. É impossível ir a Minas – a Tiradentes – com a frequência que vou e não ouvir histórias sobre quem manda naquela família. Aqui, a revista francesa Madame dedica, como sempre, sua edição de maio ao festival, mas tem espaço para lembrar, um ano depois, a ex-presidente Dilma. Um ano! O protesto da equipe de Aquarius! A revista visita o cotidiano de Dilma. A entrevista foi feita em abril. O que ela deve estar pensando das novas reviravoltas…? Madame não perde o foco. Fora, Temer não quer dizer Volta, Dilma. Mas e se for, como levanta a revista, Volta o L…? Haja ficção para dar conta da realidade brasileira. Falei de dois filmes que vi pela manhã no 70.º festival. Emendei Wonderstruck com A Espada do Imortal, Todd Haynes com Takashi Miike.`No fim da tarde fui ver o Kornel Mundruczo da competição, Lua de Júpiter, e emendei com Wind River, de Taylor Sheridan, para entrevistar o diretor e o elenco. Tinha matérias para redigir, mas passei antes no Cinema da Praia, que exibiu hoje Todo sobre Mi Madre, e M. le Président (du jury), Pedro Almodóvar, foi em pessoa fazer a apresentação. Gosto demais, mas fico sempre em dúvida se é meu Pedrito favorito. Gosto tanto de Carne Trémula, de Volver, de Julieta. E, dos antigos, Matador. Para comemorar seus 70 anos, Cannes está usando as paredes internas do palais para lembrar essas sete décadas prodigiosas. Informações do tipo – 33 segundos de O Carnaval dos Animais, de Saint Saens, compõem a vinheta e, em looping, fazem o fundo da montée des marches; 118 gramos de ouro puro é quanto pesa a Palma, e a primeira foi atribuída em 1955 a Marty, de Delbert Mann (o festival já existia desde 1946). Confesso que tenho pensado em François Truffaut. Como crítico e cineasta, ele tinha uma agenda, e era fortalecer a nouvelle vague. Por isso mesmo, fustigou a velha onda e converteu Claude Autant-Lara em alvo preferido de suas diatribes. Trinta e tantos anos depois (33, por coincidência; Truffaut morreu em 1984), François deve estar revirando na tumba. Quem vir a vinheta no YouTube verá que ela acompanha o movimento da monte des marches até a Palme d’Or. Para os seus 70 anos, Cannes colocou, em cada degrau, os nomes de cineastas importantes que fizeram sua história. E quem lá está…? Autant-Lara! Nada como o tempo para colocar as coisas em perspectiva. Há dois ou três anos, Serge Toubiana, ex-M. Cahiers du Cinéma, à frente da Cinemateca Francesa, aplaudiu de pé René Clément na homenagem ao diretor de O Sol por Testemunha, o filme que, por volta de 1960, os garotosa da nova onda amavam odiar. Em Porto Alegre, P.F. Gastal lixava-se para as regras fixas e achava Clément mais livre que qualquer de seus jovens contemporâneos. As voltas que o mundo dá. Na política, na arte… Há que se pensar com liberdade, não como rebanho.