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Cannes! (5)/Standing ovation para Naomi Kawase

Luiz Carlos Merten

14 Maio 2015 | 19h10

CANNES – Thierry Frémaux atrasou em quase uma hora a abertura da mostra Um Certain Regard. É de praxe que o diretor artístico, responsável pela curadorias, apresente os filmes e autores na sessão oficial. Fremaux nos deixou – o público e Naomi Kawase, diretora de An – ali parados, mas, quando chegou, explicou que havia sido por uma boa causa. A standing ovation para Mad Max – Fury Road, Estrada da Fúria no Brasil. C’est um film assez special, observou, e é mesmo. Pela manhã, Estrada da Fúria já havia sido aplaudido em cena aberta na sessão de imprensa. A sala não estava lotada – muita gente devia achar que um filme desses não deveria estar no maior festival de cinema do mundo -, mas nós, que ali estávamos, vibramos.  Por mais que goste de Nuri Bilge Ceylan e de Winter Sleep, mesmo reconhecendo que não é o melhor filme dele, sou dos que acham que Naomi Kawase deveria ter recebido a Palma de Ouro do ano passado por seu admirável Segredo das Águas. Até hoje tento entender por que o júri presidido por Jane Campion não outorgou a Palma para a japonesa. Sei, de fonte segura, que  ela tinha ardorosos defensores no júri e foram neutralizados pela presidente. Respeito Jane, mas me pergunto se terá sido o maldito orgulho. Afinal, ela é a única diretora a haver recebido a Palma em quase 70 anos de festival. Terá querido continuar assim? Foi isso? O que sei é que Naomi voltou à Croisette com outro filme na pegada dela. Lento, mas não monótono. Reflexivo. É seu primeiro filme adaptado de um livro, o que, ela admitiu no palco da Salle Debussy, representou um desafio a mais. Outro filme sobre o tempo, a morte, a vida. O dono de uma loja de doces tem uma funcionária idosa. Ela foi afastada da família desde cedo porque, garota ainda, foi diagnosticada como leprosa. Uma vida inteira à margem. A revelação bate fundo no patrão, porque ele também, mas por outro motivo, viveu sempre ‘do outro lado’. Que lição se tira de uma história dessas? Reze para Renata de Almeida leve o filme para a Mostra. Quase dez minutos de standing ovation, e eu ali, chorando e aplaudindo com todo mundo. O festival está recém começando, mas o da Kawase foi o melhor filme que vi até agora. Thierry Fremaux voltou à sala e acompanhou Naomi em seu triunfo. Deve ter-se dado conta da m… que fez. Seu filme pertence muito mais à competição que o de Matteo Garrone, por exemplo. Amanhã, o brilho promete ser dos norte-americanos. Um Woody Allen fora de concurso (The Irrational Man) e um Gus Van Sant concorrendo à Palma de Ouro (Sea of Trees). Mas a manhã abre-se com o grego, em sessão para a imprensa. The Lobster, de Yorgos Lanthimos. Num futuro próximo, todo celibatário é preso e recebe um, ultimato – se não se casar em 45 dias, será transformado em bicho. Como o bombeiro de Fahrenheit 451, de François Truffaut, ele foge para a floresta, onde viviam os homens-livros e agora se reúnem os Solitários. Achei bem curioso. Amanhã, eu conto.