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Cannes (4)/Que russo é esse?

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2017 | 18h20

CANNES – Tivemos hoje na coletiva do júri um princípio de polêmica. Pedro Almodóvar, presidente do júri, atacou a intransigência da Netflix, dizendo que as plataformas digitais representam uma nova forma de oferecer conteúdo pago, algo que é bom e enriquecedor, mas (essas plataformas) também ‘devem assumir e aceitar as regras do jogo’, respeitando ‘as distintas formas de exibição e as obrigações de investimento que atualmente regem na Europa’. Will Smith foi mais conciliador e disse que seus filhos veem filmes nos cinemas e nas plataformas digitais. Não são excludentes – mas, em Cannes, é isso que a Netflix está fazendo. O assunto promete render, até porque a organização do festival já mudou a regra para 2018. No ano que vem, só entra filme que se comprometer a passar no cinema. À parte essas polêmica, confesso que estou vivendo minha primeira epifania cannoise de 2017. Para compensar a decepção do Arenaud Desplechin – Os Fantasmas de Ismael, fora de concurso -, o primeiro filme da competição, o russo Nelubov/Falta de Amor, de Andrey Zvyagintsev, é maravilhoso. Um casal em plena separação. A mulher confessa que nunca amou o mareido, que nunca quis o filho. O menino, Alyosha, ouve. E chora. Desaparece. O filme é essa longa busca pelo filho, em meio a todo tipo de casamento. Cenas de um (ex)casamento. A mãe que não gosta do filho. Zvyagintsev potencializa Ingmar Bergman e tem atores maravilhosos – ela, Maryana Spivak, é genial. Agora, sim, o festival começou.