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Cannes (4)/Palme queer?

Luiz Carlos Merten

12 de maio de 2016 | 06h49

CANNES – Há três anos, recusado na competição, Alain Guiraudie recebeu o prêmio de direção da mostra Un Certain Regard com Um Estranho no Lago. Ele retorna agora a Cannes, e competindo pela Palma de Ouro. Guioraudie veio dizer o que já dava para intuir. Foi muito mais fácil levantar a produção de Rester Vertical, mesmo se o filme continua abordando sexualidades, digamos, alternativas. Guiraudie diz que é um filme queer, não gay. O protagonista é um roteiristas de cinema, mas os bastidores da indústria não são seu tema, como também não são do Woody Allen, por mais que Café Society seja enriquecido com informações de cocheira sobre a Hollywood dos anos 1930. Num mundo de lobos – e os lobos aparecem, realmente, não apenas como metáfora -, Léo/Damien Bonnard parece caçar homens na estrada e nas pequenas cidades por onde anda. Envolve-se com uma camponesa, com o pai dela e outro velho, a quem ajuda a morrer de uma maneira insólita. Como Bruno Dumont, Guiraudie é atraído pela paisagem rural e pela sexualidade dúbia. Como Dumont, em A Humanidade, ou terá sido Flandres?, ele repete o grande plano da vagina que ocupa a tela inteira – a maior tela do mundo. Durante quase todo o filme, Léo carrega esse bebê, do qual é separado, mas que arranja uma maneira de recuperar. No fim, os lobos que ele procura aparecem. Ameaçadores, mas nem tanto. Basta que fiquemos de pé (rester vertical) e não tenhamos medo. Guiraudie não põe fé de que possa ganhar a Palma de Ouro. Ficaria contente com a Palme queer. Quem sabe a Palme Dog, já que há um cachorro na trama? Cahiers du Cinema o define como um dos excêntricos do cinema francês – Dumont seria, ou é, outro. Os dois participam da seleção oficial. Esse festival está começando bem. E daqui a pouco tem Jodie Foster, que festeja os 40 anos de sua sagração como estrela mirim em Taxi Driver – o Martin Scorsese que ganhou a Palma de 1976, não de 1975, como acho que coloquei no jornal – mostrando, fora de concurso, seu novo filme como diretora, Money Monster. O filme desconstrói o mito dos gurus do jornalismo econômico. E traz à Croisette uma dupla de peso. George Clooney é habitué em Cannes (e em todos os demais festivais). Julia Roberts, pasme!, faz recém agora sua estreia em Cannes. Corto minha mão se sua simples presença não provocar frenesi na coletivas, e no tapete vermelho.