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Cannes (42)/E agora, senhor presidente?

Luiz Carlos Merten

22 de maio de 2016 | 05h28

CANNES – Não, não é Michel Temer, que voltou atrás e reintegou o Ministério da Cultura. Vou fazer o que gosto. Tergiversar um pouco. Preciso recuperar hoje o único filme da competição que não vi – Ma’Rose, do filipino Brillante Mendoza. E, depois, será esperar pela premiação, à noite. E a Palma de Ouro vai para…? Gostei demais do iraniano (The Salesman/Le Client, de Asghar Farhadi), do Jim Jarmusch (Paterson) e sigo torcendo pelo filme do Kleber (Aquarius), mas a Palma de Ouro… Paul Verhoeven (Elle)? A alemã, Maren Ade (Toni Erdmann)? Seria mais aceitável, não digo defensável, que uma Palma para Bruno Dumont, por mais que o admire. Ma Loute foi uma das minhas decepções no festival. Susanm Sarandomn veio aqui, na qualidade de ambassatrice da L’Oréal, para comemorar os 25 anos de Thelma & Louise. Deu uma entrevista que virou capa de Le Journal du Dimanche. Susan falou de política, do papel da mulher no mundo, de ativismo e envelhecimento. Não exatamente por estar em Cannes como embaixadora da L’Oréal, Susan manteve seu discurso – ‘Não vou renunciar nunca à minha liberdade de expressão’ -, mas, com a idade, acrescentou algo novo. Criticou os coleguinhas atores e atrizes. “Só militam por causas ecológicas, e não é que não sejam importantes, mas geram menos controvérsia.’ Segue acreditando na beleza que vem do interior, mas uma ajudinha… ‘É preciso cuidar do físico.’ Isso significa comer bem, manter-se ativa, não agredir a pele. Deu dicas de maquiagem (o hidradante tal, que tem um soro rejuvenescedor), essas coisas femininas. O tempo passa e Susan, aos 69 anos, não perdeu o brilho. E ela se recusa a ser plastificada como Jane Fonda. Fundou uma empresa produtora – de documentários. O interessante é que estava com essa revista desde o começo do festival. E, há pouco, ao folheá-la, descobri que tinha também uma entrevista com o presidente do júri deste ano, e George Miller – que dirigiu Susan Sarandon em As Bruxas de Eastwick -, foi jurado duas vezes em Cannes. Com Ettore Scola, em 1988, e com David Cronenberg, em 1999. Fiz uma pesquisa e os vencedores foram, respectivamente, Pelle, o Conquistador, de Bille August, e Rosetta, a primeira Palma dos irmãos Dardenne. Não sei se isso sinaliza para alguma coisa que devamos esperar hoje, mas, no retrospecto, Pelle, um grande filme ‘clássico’, talvez não seja tão bom quanto Bird, de Clint Eastwood, O Sul, de Fernando Solanas, Chocolat, de Claire Denis, Não Matarás, de Krysztof Kieslowski, ou Os Canibais, de Manoel de Oliveira, que também concorriam naquele ano. Com Rosetta, concorriam Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar, Moloch, de Alexander Sokurov, Kadosh, de Amos Gitai, e A Humanidade, de Bruno Dumont, todos grandes filmes que poderiam ter vencido, mas ainda acho que a escolha daquele filme dos Dardenne foi ousada. E agora M. le president? And now, Mr. president?