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Cannes (41)/Cinema do caos

Luiz Carlos Merten

30 Maio 2017 | 08h28

PARIS – Sinto que ainda preciso esclarecer algumas coisas sobre Cannes. Afinal, o sentido de eu vir ao maior festival do mundo não é só satisfazer meu prazer, por maior que seja, de lá estar – entendo perfeitamente o partido de Robert Pattinson, que diz que hoje em dia escolhe seus papeis pensando se o levarão à Croisette -, mas também fornecer informações indispensáveis ao leitor, do jornal e do blog. E, para isso, é preciso distanciamento. No calor da hora, os prêmios estão saindo e é preciso reportar. Merecido, não? Durante todo o tempo, nós, jornalistas, ficamos comparando. Existem – sempre – filmes melhores em outras mostras. A pergunta que nunca cala – por que não esse na seleção oficial? Na competição? Porque ambas são ‘construções’ do diretor artístico Thierry Frémaux, como também são as seleções da quinzena dos Realizadores e da Semana da Crítica. Fiquei muito feliz porque a imprensa francesa, comentando a seleção da Semaine e a premiação do júri de Kleber Mendonça Filho, disse que era ‘aventurière’, aventureira, no sentido de privilegiar a aventura, o espaço do desconhecido, e por isso os melhores filmes foram Makala, de Emmanuel Gras, que venceu, e o brasileiro Gabriel e a Montanha, de Fellipe Gamarano Barbosa, que não foi esquecido na premiação. De volta à Palma, acho que me ajudou a avaliação do Le Monde, nesta terça-feira. Curioso, esse jornal. Quando me iniciei no Estado, há quase 30 anos –
em 1989 -, o jornal não saía às segundas. Na era da informação instantânea, da internet, das redes sociais, Le Monde segue com sua edição dupla no impresso – dimanche-lundi, domingo e segunda. É realmente o jornalismo analítico, como deve ser o impresso, que não tem como concorrer com o online. No domingo, Le Monde saiu com uma reportagem impressionante sobre o PCC e a Cracolândia, no Centro de São Paulo. A miséria humana e a máfia mais potente do Brasil. O Primeiro Comando da Capital exposto como é – uma empresa das mais lucrativas, e com métodos brutais. Daria um grande filme, mas quem será nosso Francesco Rosi? Tergiverso. Thomas Sotinel, o crítico do Le Monde, propõe um exercício de ficção. A seleção 2017 de Thierry, independentemente de ter sido inferior à de 2016 (e foi), reflete o caos do mundo. A premiação do júri de Pedro Almodóvar foi outra construção. A Palma como objeto de arte, e não só por que o filme vencedor – The Square, do sueco Ruben Ostlund – aborda a arte contemporânea. O júri, com frieza cirúrgica, deixou de lado tudo o que não refletia esse cinema do caos. Apesar da euforia de Ostlund – pulando no palco e convidando o público a celebrar com ele, algo que não se via no Grand Théâtre Lumière desde que Roberto Benigni se ajoelhou para beijar os pés do presidente do júri, Martin Scorsese, que o premiara por A Vida É Bela -, The Square não é um filme ‘joyeux’, jubiloso. Nem o é o russo Loveless, Sem Amor – título preferível ao francês Faute d’Amour, Falta de Amor, de Andrey Zvyagintsev -, que Sotinel põe nas nuvens, como eu. O casal que se despedaça, o filho consciente de ser indesejado, e que desaparece. Nesse sentido, Sotinel não discute se Diane Kruger, como mãe vingativa, foi a melhor atriz, mas como o filme de Fatih Akin, In the Fade, se integra com os demais premiados e como todos fornecem um espelho da situação do mundo em 2017. Um século após a revolução de 1917, que, goste-se ou não teve um significado- e no cinema produziu alguns dos maiores filmes: Terra, Mãe, O Encouraçado Potemkin -, a crise é global e está em toda a parte. Nos pesadelos privados e políticos de François Ozon e Sergei Loznitsa, O Amante Duplo e Uma Mulher Doce; nas parábolas pessimistas de Kornel Mundruczo (A Lua de Júpiter) e Michael Haneke (Happy End), e o austríaco não só não obteve a terceira Palma como não ganhou prêmio algum. Sotinel levanta uma questão relevante – o sul-coreano Okja, de Bong Joon-ho, e o norte-americano The Meyerowitz Stories, de Noah Baumabach, nada ganharam. Mais que uma sanção contra a Netflix, seu otimismo não se encaixa na construção de Almodóvar e seu júri. Nesse quadro, agora sou eu falando, 120 Batimentos por Minuto, do francês Robin Campillo, talvez seja o oposto daquilo que ressaltou o júri da crítica, ao lhe atribuir o prêmio Fipresci – um filme sobre a morte que exalta a vida. Talvez fosse mais um filme sobre a luta pela vida (a militância da organização Atc Up) que se choca com a intransigência das instituições, e elas sinalizam a morte. Em jornais e revistas, vocês podem estar certos de que essa seleção – e a premiação – ainda vão dar muito o que falar.