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Cannes (40)/Sofia, a segunda. Primeira foi Madame Dovjenko

Luiz Carlos Merten

29 Maio 2017 | 19h39

PARIS – Como vocês podem ver, há uma defasagem entre o título – ainda um post sobre Cannes – e o lugar em que estou, e não é mais a Côte d’Azur mas Paris! Cheguei à tarde, já vi filmes, fiz matérias (para o online), mas preciso esclarecer um ponto. Havia mandado um texto para o jornal dizendo que Sofia Coppola era a primeira mulher a ‘remporter’ o prêmio de direção. Não sei se trocaram, ao descobrir o engano – espero que sim -, mas de qualquer maneira isso não muda o fato de ela (Sofia) haver feito história em Cannes. Assim como teria sido a segunda, se eventualmente tivesse ganhado a Palma de Ouro – Jane Campion foi a única que venceu, nesses 70 anos de Cannes, em 1993, por O Piano, mas dividiu o prêmio com Chen Kaige, por Adeus, Minha Concubina -, Sofia foi a segunda a receber o prêmio de mise-en-scène, por The Beguiled. A primeira foi a russa Yuliya Solntseva, em 1961, em outra etapa da história do festival. Quem for aos arquivos do festival verá que Cannes, no final dos anos 1950 e início dos 60, era um devotado ao cinema da antiga URSS. Um pouco porque era uma época em que intelectuais de esquerda se assumiam como comunistas, por ideologia ou para fazer frente à crescente supremacia da ‘América’, mas a verdade é que os russos marcavam presença em Cannes. Mikhail Kalatozov ganhou com Quando Voam as Cegonhas em 1958 e, em 1960, o prêmio da melhor seleção foi para a URSS, por A Balada do Soldado, de Grigori Tchoukrai, e A Dama do Cachorrinho, de Youssef Kreifitz, mas a melhor seleção? No ano em que a Itália tinha A Doce Vida, de Federico Fellini, e A Aventura, de Michelangelo Antonioni? É verdade que A Aventura foi vaiado pelo público, e o fato até hoje é citado como um dos grandes escândalos da história do festival. Só sei que, em 1961, a Palma de Ouro foi dividida, ex aequo, entre Viridiana, de Luis Buñuel, e Une Aussi Longue Absence, de Henri Colpí. Naquele ano, o polonês Jerzy Kawalerowicz ganhou o prêmio especial do júri por Madre Joana dos Anjos, Sophia Loren foi melhor atriz por Duas Mulheres, de Vittorio de Sica, e o prêmio da crítica foi para La Mano en la Trampa, do argentino Leopoldo Torre Nilsson. Ah, sim, estava esquecendo que foi criado um Prêmio Gary Cooper, em homenagem ao ator que morrera, e que recompensou A Raisin in the Sun, O Sol Tornará a Brilhar, crônica de uma família negra que foi o pré-Fences, Um Limite Entre Nós, de e com Denzel Washington, que tanta sensação fez no Oscar deste ano. Pois foi nesse quadro, com tantos filmes bons, que Yuliya foi a primeira mulher – e a única, até ontem – a ganhar como melhor diretora. Só tem um problema. Ela era viúva do grande Dovjenko, o poeta de Terra, que morreu justamente durante a filmagem de Epopeia dos Anos de Fogo, que teria ficado inacabado, se Yuliya não o tivesse terminado. Até hoje há controvérsia – quanto ela filmou? E, de qualquer maneira, a geração nouvelle vague foi impiedosa com Yuliya, até porque ela estava ganhando o prêmio que os autores jovens queriam. Jean-Luc Godard ironizou dizendo que gostaria de fazer filmes comunistas e sinceros, mesmo que depassés, como M. Dovjenko. Nem a nomeou, deixando implícito que o prêmio seria uma homenagem póstuma a Dovjenko. Viajei nessa história, talvez esteja me explicando. Com imagens talvez ficasse mais fácil para eventuais leitores, mas as imagens estão passando na minha cabeça. Você pode procurar por Epopeia dos Anos de Fogo no YouTube. Em inglês é The Story of the Flaming Years, os anos de sofrimento do povo russo, combatendo os invasores nazistas.