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Cannes (40)/O Olho de Ouro para Eryk Rocha

Luiz Carlos Merten

21 de maio de 2016 | 20h36

Cannes – Fiquei realmente feliz que Eryk Rocha tenha feito história no Festival de Cannes. Seu pai, Glauber, figura icônica do cinemas brasileiro, ganhou o prêmio de direção (por O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro) e a Palma de Ouro do curta (por Di). Eryk ganhou o Oeil d’Or, o Olho de Ouro, por seu documentário Cinema Novo, que não é exatamente sobre o movimento que transformou (revolucionou?) o cinema brasileiro nos anos 1960, mas sobre uma geração que amava o cinema e achava que poderia ser um instrumento para mudar o País (e o mundo). Conversei com Eryk, com seu produtor Diego (nunca sei se é é Diogo) Dahl. O filme será distribuído no Brasil pela Vitrine, de Sílvia Cruz, uma guerreira na promoção do cinemas brasileiro. Tenho pensado muito. Todo esse tempo temos pensado na possível premiação de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. Coloco no plural, porque não é um desejo meu, mas da imprensa brasileira que cobre o festival. Mirávamos lá (Kleber) e já ganhamos aqui (Eryk). Ando decepcionado, e triste, com as reações contra o filme de Kleber. Tem gente dando nota baixa pro filme nas redes sociais, sem ter visto. Se já uma campanha pela ética no País, como é possível acreditar na própria integridade agindo desse jeito?Temos visto aqui em Cannes filmes que abordam a ética no cotidiano. Creiam-me, é mais difícil. Protestar contra a grande corrupção é fácil, difícil é a pequena, do dia a dia. Os pequenos gestos que comprometem. Um tal Reinaldo, que eu estava confundindo com Rinaldo, meu ex-colega no Caderno 2 – um homem de bem -, está liderando uma campanha contra o filme do Kleber, que, a propósito, não viu. Será que se deu ao trabalho de ler certa entrevista do ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa, o homem que ia salvar o Brasil? Será que viu o filme anterior do Kleber, O Som ao Redor? Ou Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert? E essa gente se acha honesta, séria, cheia de razão. Desviei-me do assunto. Gostei demais do filme de Asghar Farhadi, The Salesman/Le Client. Gostei demais de Paterson, Julieta, Elle, Aquarius, Sieranevada. Por melhor que creio que seja, não creio que Elle leve a Palma. Se Paul Verhoeven ganhar, será uma agradável surpresa. Um diretor do cinemão – o presidente do júri, George Miller – pode muito bem reconhecer a força provocativa de Verhoeven, mas daí a lhe outorgar a Palma…? Estou ansioso pela premiação de amanhã como nunca estive nos últimos anos. Kleber leva, e o quê? E, se não levar, Aquarius ficará menor por isso? São perguntas para depois.