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Cannes (3)/Ainda Woody Allen, e o primeiro romeno

Luiz Carlos Merten

11 de maio de 2016 | 21h02

CANNES – Esse blog está de sacanagem comigo. Escrevi um post inteiro e na hora de salvar ele sumiu. Pqp. Vou tentar reconstitui-lo rapidamente, pois já são quase 2 da manhã (aqui) e tenho de levantar às 7. Em primeiro lugar, tenho de dizer que não estou certo de ter dado uma ideia correta do novo Woody Allen. Para início de conversa, Jesse Eisenberg não faz um aspirante a escritor em Café Society. Ele chega a Hollywood movido pelo desejo de fugir de Nova York e da família. O tio, que é um agente importante na indústria do cinema – Steve Carrell -, não lhe dá muito apoio. Mas Jesse conhece Kristen Steweart, por quem se apaixona. A vida é feita de escolhas e ela, que vive um triângulo amoroso, faz a dela. Jesse retorna para Nova York, dirige o night club do irmão gângster. O lugar vira cult, reduto de celebridades e socialites – o café society do título. O tempo passa e Kristen e Jesse se reencontram. O amor vai triunfar? Mas será amor de verdade? Woody Allen indaga-se sobre o sentido da vida e conclui – é seu humor judcaico – que não tem sentido (nenhum). Gostei do filme, mas foi como percorrer um território conhecido. Mais do mesmo, segundo Woody, embora com algumas novidades – o cunhado comunista é ótimo. Aliás, é impressionante como o comunismo tem voltado na produção de Hollywood. O novo, nesse primeiro dia, veio com Sieranevada, de Cristi Puiu, o primeiro filme, e o primeiro romeno, da competição. Puiu (re)colocou o cinema romeno no mapa, aqui mesmo em Cannes, com A Morte do Senhor Lazarescu. O filme era sobre um velho que chamava uma ambulância e Puiu via o falido sistema de saúde da Romênia como herança da ditadura (maldita) de Ceasescu. A sociedade segue enferma em Sieranevada. Três dias após o ataque ao Charlie Hebdo, em Paris, uma família reúne-se para um culto lembrando o patriarca. Ocorre todo tipo de lavagem de roupa suja familiar, discutem-se o 11 de setembro, os crimes do Estado etc. E tudo, salvo a cena inicial e outra próxima do fim, se passa entre quatro paredes. Quase três horas. A câmera fica parada no meio de um corredor e os personagens entram e saem de portas – da cozinhas, da sala, do dormitório, do banheiro. Boa parte do filme ocorre por trás de portas fechadas. E o tempo é real. É um elaborado exercício de mise-em-scène. Nada mais auspicioso para abrir o maior festival do mundo. Se serve de amostra para o que vem a seguir, Cannes, em 2016, promete ser um grande festival.