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Cannes (39)/Verhoeven, o eterno provocador

Luiz Carlos Merten

21 de maio de 2016 | 09h05

CANNES – E, no último dia, veio Paul Verhoeven. Não creio que Elle seja ‘palmarizável’, mas me deixou nos cascos. Admiro Verhoeven, e não é de hoje. Gostei muito do seu filme, só não estou seghuro de que seja melhor que The Black Book, que me parece uma obra-prima. Verhoeven gosta de contar como viu, aqui mesmo em Cannes, Sharon Stone se transformar numa estrela em 24 horas. Tudo por causa de um papel, e um filme. Catherine Tremell, em Instinto Selvagem/Basic Instinct. Em 1992, a cruzada de pernas de Sharon/Catherine bastava para eletrizar o festival. Tivemos depois a felação (real) de Chloë Sevigny no ator e diretor Vincent Gallo, de The Brown Bunny. As coisas foram num crescendo até a ejaculada em 3D, do garoto de Love, de Gaspar Noë, no ano passado – e ele, o cavalão, é um joguete para a falsa inocente de Nicolas Winding-Fern em The Neon Demon. Este ano, tivemos tudo – sexo anal, oral, estupro. Ninguém se admira com mais nada. Fazem-se apenas reservas técnicas. A sodomização em Ma’Rose, do filipino Billante MEndoza, nem mesmo vai até o final. Nesse quadro de permissividade – estou constatando, não criticando-, Verhoeven ainda conswegue surpreender, por sua liberdade e audácia. Ele credita isso a Isabelle Huppert. A ela, tudo po0de-se pedir, que ela fará maravilhosamente. Os créditos ainda estão rolando e ouve-se um som de luta. A primeira imagem é do gato. Michele/Isabelle está sendo violada por um agressor mascarado. O cara permanece próximo, e ameaçador, mas Michele nunca se intimida e o caça- faz uma enquete, mais uma nesse festival. A revelação da identidade do agressor não resolve o problema. A violência continua, como se a própria vida fosse um videogame como os que a empresa de MIkchele produz. De perto ninguém é normal. Michele, às vezes, parece louca na sua frieza. Pode/deve ter herdado sua ‘monstruosidade’ do pai assassino, mas o filho, a mãe, o ex-marido – e o amante, o violador -, ninguém parece normal, no sentido de que a normalidade não é desse mundo e somos todos almas atormentadas. Gosto demais de Verhoeven, de seus excessos, de suas mulheres. Nessa verdadeira guerra que é a vida, segundo o diretor, só os fortes (as fortes) sobrevivem. Até o filho, de quem Michele reclama – ‘T’es con, ou quoi?’ -, descobre sua força. Tudo é muito ambíguo, fascinante. E eu me entrego nessas imagens, viajo nelas como se o cinema fosse a minha missa, e a minha salvação.