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Cannes (37)/A surpresa iraniana

Luiz Carlos Merten

20 de maio de 2016 | 20h58

CANNES -Embora o Ken Loach que ganhou a Palma de Ouro tenha sido exibido no primeiro dia, naquele ano, há uma tradição em Cannes de que o filme vencedor normalmente passa mais para o fim do festival, e no último dia. Tenho falado aqui dos meus top five, os filmes de Jim Jarmusch, Pedro Almodóvar, Kleber Mendonça Filho, Xavier Dolan e Cristi Puiu. Desde o início, vocês sabem que estou numa expectativa louca pelo Paul Verhoeven, programado para amanhã, tã-tã-tã-tã, último dia da competição de 2016. Pode até ser que Elle corresponda a tudo de bom que espero de Verhoeven, mas hoje à noite vi um filme que bagunçou tudo. O iraniano Asghar Farhadi veio para arrebentar com The Salesman/Le Client. Gosto muito de Procurando Elly e Uma Separação, que ganhou em Berlim (e o Oscar), mas não me convenci com O Passado, que concorreu, aqui mesmo em Cannes, em 2013. Tanto isso é verdade que fiz uma matéria para o Caderno 2 de amanhã centrando minha expectativa em Elle. Perdi a primeira sessão do Farhadi e fui com calma, pela praia, até o Palais. Parei no Cinéma de la Plage para ver o começo En Quatrième Vitesse, o genial A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly), de Robert Aldrich, e o filme continua tão bom que quase fiquei. Foi duro cortar o cordão umbilical, mas era preciso. Fui para o Farhadi e tomei um choque. É melhor que Uma Separação! O melhor filme do festival? Sorry, Kleber, mas creio que sim. The Salesman/Le Client é complexo e humano, extraordinariamente bem feito, e de certa forma reúne todas as grandes questões colocadas como linhas dramáticas (e temáticas) do 69º festival. O protagonista é um dublê de professor e ator. Participa de uma montagem de A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, com a mulher. Logo na abertura, o prédio em que o casal vive é interditado e eles precisam sair (como Sonia Braga em Aquarius). Alugam um apartamento sem saber que pertenceu a uma prostituta. A mulher está entrando no banho, toca o interfone, ela pensa que é o marido, e abre. É um antigo cliente da casa, que vai entrando no banheiro. A partir daí, embola tudo. A mulher desmaia no banheiro, machuca-se e não sabe mais o que ocorreu. O marido leva uma enquete policial (como vários filmes da competição desse ano – Julieta, os Dardenne, Ma Loute etc). Quando descobre o invasor e resolve se vingar, arvora-se em justiceiro e cria um debate ético (como o filme do romeno Cristian Mungiu, Baccalaureat). Fiquei realmente impressionado com o Farhadi. Enfim, um grande filme do Irã. Não aguento mais esses filmes meia-boca do Jafar Panahi que já entram vitoriosos nos grandes festivais por causa da situação do diretor (na vida).