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Cannes (36)/Sean Penn e o inferno das boas intenções

Luiz Carlos Merten

20 de maio de 2016 | 10h06

CANNES – Creio que deixei claro no post anterior que não gostei de The Neon Demon, o terror gore de Nicolas Winding Fern, mas tenho de admitir que o filme ficou comigo e que, dentro de toda aquela extravagância estilística, existe uma espécie de documentário sobre uma sociedade enferma na sua busca obsessiva da perfeição física. E é curioso como Neon Demon dialoga com outro filme nos seus antípodas, que vi agora de manhã. The Last Face, de Sean Penn, é tão ruim quanto, mas tem o inferno das boas intenções. Penn ainda devia estar apaixonado por sua ex, Charlize Theron, e ela é maravilhosa, embora não possa deixar de anotar que, como outra deusa, Angelina Jolie Pitt, tem as pernas finas. The Last Face é um filme à l’honneur dos Médicos sem Fronteiras. Javier Bardem faz um médico, Charlize é a filha do criador do movimento (da ONG). Conhecem-se durante as guerras na África – na Libéria, especialmente – e a câmera de Penn não nos poupa de nenhum detalhe do horror. Corpos mutilados, membros destroçados, vaginas laceradas, porque a violência sexual é uma das armas mais eficientes de intimidação. E sangue, muito sangue. Sentei-me ao lado de um jornalista português que passou meio filme olhando para baixo, para não ter de encarar a barbárie. De cara, num dos primeiros diálogos, Charlize tem de ir a uma gala, a um concerto. Bardem não quer acompanhá-la, mas ela diz que tem de ir para seguir acreditando que o homem também faz coisas belas. O filme é cheio desses statements. O pobre Jean Reno passa como um autômano diante da câmeras para dizer, em diferentes momentos, duas frases de efeito (sobre o amor e o comprometimento) que fizeram, a plateia rolar de rir. Mas ali dentro, e de forma bem diferente de Neon Demo0n, também há um documentário – sobre a guerra, a brutalidade, a imperfeição (física e moral) do humano. O que derruba The Last Face é a história de amor. Nos créditos iniciais, um letreiro fala da guerra como experiência visceral, tão dilacerante quanto os embates entre um homem… (pausa) …e uma mulher. Cannes podia querer Sean Penn, Javier Bardem e Charlize Theron no seu tapete vermelho, mas bastava colocar o filme fora de concurso, em alguma sessão da meia-noite. The Last Face concorre. Deus nos livre que o presidente do júri, George Miller, queira premiar Charlize em desagravo por ela, em seu admirável Mad Max – Estrada da Fúria, não ter sido indicada para o Oscar.