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Cannes (35)/A antropofagia de Neon Demon

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2016 | 20h18

CANNES – Já disse aqui no blog que acho Nicolas Winding-Fern muito esquisito. Veste-se como mauricinho, todo engomado, usa óculos de nerd, mas adora uma transgressão. Já o vi apresentar filmes de Alejandro Jodorowsky e, neste festival, Mario Bava – a versão restaurada de O Planeta dos Vampiros, e o filme teve restauro por iniciativa dele. Já contei como Nicolas, ao apresentar o Bava, provocou. Disse que Cannes precisa assistir a bons filmes de vez em quando, e por isso agradeceu a Cannes Classics por mostrar O Planeta. Sugeriu que outro bom filme seria o dele, mas sorry, belo, não foi. The Neon Demon participa da competição. Teve agora à noite a sessão de imprensa. O filme é uma espécie de thriller, ou terror gore. Uma garota chega a Los Angeles e vira queridinha de fotógrafos e estilistas por sua beleza natural e um rostinho de anjo. As outras modelos são todas plastificadas. O problema é que a garota vai pirando e provoca uma onda de ódio. O sexo, que não há, certas sugestões de violência, tudo remete a um cinema italiano B dos anos 1960 e 70, representado por diretores como Lucio Fulci, Sergio Martino, o próprio filho de Mario, Lamberto Bava, que ‘Nic’ definiu como ‘grande’ – não sei em que galáxia. The Neon Demon começa bonito e provoca estranhamento. Mas é hiper super exageradamente estilizado. Todo mundo quer levar Ellen Faning para a cama, mas ela, como Narciso, seduzida pela própria beleza, recusa homens e mulheres. Tem ali uma conexão que poderia ser interessante dela com a lua, mas Winding-Fernm só lança a ideia e esquece. Não gostei der Neon Demon – sinto muito, Paula Ferraz -e, com aquele montede bofes e belas mulheres correndo atrás da heroína achei um desperdício que o filme também não vá fundo no erotismo. teria dado umas cenas de cama bem boas, pelo menos isso. O diretor mirou em David Lynch – os personagens que fazem experimentos com os próprios corpos e viram aberrações aos olhos de seus semelhantes -, mas é um Lynch bem superficial e muito, muito piorado. Mas tem uma coisa. Cannes este ano investiu no canibalismo. Como Ma Loute, de Bruno Dumont, e apesar das diferenças gritantes, Neon Demon tem um lado ‘manifesto antropofágico’.