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Cannes (34)/Iggy e Luís XIV, Reis solares da Croisette

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2016 | 12h32

CANNES – Vivi hoje uma experiência singular. Quem me acompanha sabe que amo Albert Serra e até hoje não perdoo os Dardenne, que quando integrei o júri da Caméra d’Or, sob a presidência deles, não quiseram saber de Honor de Caballeria. Serra está de volta a Cannes, fora de concurso, com A Morte de Luís XIV. Jean-Pierre Léaud interpreta o Rei-Sol. O filme começa em 7 de agosto de 1715, mas se concentra no período entre 24 de agosto e 1º de setembro, quando o rei morre em consequência da gangrena que avança sobre seu corpo a partir da perna. Os médicos querem amputá-lo, ele descarta a ideia. Durante cerca de 90 minutos, confinados no quarto real, assistimos à agonia de Luís XIV. Serra desconhece o mundo lá fora. E não importa que seja o maior rei da França. Ao diretor, não é nem a morte do grande homem que interessa. É a morte, tout court, cercada de dor, de um homem que sofre, e não ajuda nada que seja rei. A última frase provocou riso – “Tentaremos fazer melhor da próxima vez”, dizem os médicos. O que dizem ecoa uma frase de Léaud. “Eu morro, mas o Estado permanece.” Fiquei impressionadíssimo com o rigor formal de Serra e a máscara do eterno Antoine Doinel. Léaud fala o mínimo. Numa cena chave entra a Missa em C Menor de Mozart. É de arrepiar. Saio da sala e topo com um Rei-Sol de verdade, envelhecido e algo sombrio na sua jaqueta de couro preta (ah, os rebeldes com causa da tela) e, sim, cheio de vitalidade. Iggy Pop veio apresentar Gimme Danger, o segundo Jim Jasrmusch da seleção (após Paterson). Antes de sair do Brasil gostei muito do documentário sobre o Queen e o histórico primeiro show da Bohemian Rhapsody. Também adorei Gimme Danger. Jarmusch e Iggy Pop são bróders. Fizeram três filmes juntos – Coffee and Cigarettes III, que ganhou a Palma do curta, Dead End e o episódio Somewhere in California, de Coffe and Cigarettes (a versão longa). A canção título é do álbum Raw Power e foi gravada em 1972. No ano seguinte, David Bowie fez seu remix. Iggy Pop ajudou o amigo Jarmusch a reunir o material. Não tinha nada, mas sabia quem tinha – ‘uns malucos, traficantes’. Gimme Danger remete, obviamente, a Gimme Shelter, o documentário clássico dos irmãos Maysles e Charlotte Zwerin sobre a turnê de 1970 dos Rolling Stones. Shelter/Abrigo, danger/perigo. Iggy Pop é uma lenda. Deixou as drogas – ‘So tomo vinho’ -, mas não ficou careta. Gimme Danger. Lembrou os tempos heroicos do rock. “A gente não pensava em royalties, só queria gravar e fazer da vida uma festa. Hoje em dia, na era da digitalização, todo mundo só pensa em ficar rico com um clique (no computador).” Foi Iggy quem disse, não eu. Além de engraçado, ele sabe das coisas.