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Cannes! (34)/Agora, sim

Luiz Carlos Merten

26 de maio de 2015 | 05h45

PARIS – Cheguei ontem à noite cansado no hotel e o texto que postei sobre o festival não era o que queria. A própria imprensa francesa ainda assimila os resultados do júri presidido pelos irmãos Coen. Há três ou quatro anos, Steven Spíelberg fizera história outorgando uma tríplice Palma, a Abellatif Kechiuche e a suas atrizes, Léa Seydoux e Adèle Axerchopoulos, por La Vie d’Adèle/Azul É a Cor Mais Quente.  Os Coen, separadamente, outorgaram outra Palma tríplice ao cinema francês. Palma para Jacques Audiard, prêmios de interpretação para Emmanuelle Bercot e Vincent Lindon. Validaram uma seleção na qual a representação da França – cinco filmes num total de 19 da competição – parecia, ou era, excessiva. É curioso como são as coisas. Depois da Palma para Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat, em 1987, passaram-se mais de 20 anos até que a França ganhasse de novo com Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, em 2008. Logo em seguida veio a Palma de Kechiche e, agora, a de Jacques Audiard, por Dheepan. O novo filme não é tão bom quanto Um Profeta, mas e daí? O Anatólia de Nuri Bilge Ceylan também é melhor que Winter Sleep, o que pode indicar que ele talvez tenha sido premiado pelo filme errado, mas o importante é olhar cada filme separadamente, e no quadro da respectiva competição. O que me pareceu mais importante nesse festival foi um gesto consciente do presidente Pierre Lescure e de seu delegado-geral, ou diretor artístico, Thierry Frémaux. Esse segundo parece meio teflon. Minha próxima entrevista terá de ser com ele. Depois do glamour da última seleção de Gilles Jacob, a primeira de Pierre Lescure trocou o glamour, restrito ao tapete vermelho – sem o qual Cannes não existe – pelo social. Abertura com La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot, sobre a infância marginalizada; Palma para Dheepan, a dupla tragédia – do imigrante e da periferia -; Palma para Vincent Lindon, melhor ator por La Loi du Marché e o filme de Stéphane Brizé encara o desemprego; Palma, finalmente, especial para Agnès Varda, primeira mulher a receber o prêmio e autora de filmes como Sans Loi ni Toit e Les Glaneurs et la Glaneuse, todos engajados na questão social e na crítica dos excluídos. A mais bela exceção do 68.º festival foi o filme que muitas genter gostaria de ter visto ‘remporter’ a Palma. O Assassino, de Hou Hsiao-Hsien. Não foi a Palma, mas, como disse o jurado Jake Gyllenhaal, o prêmio de direção não foi mau, não? Já disse que não estou inteiramente de acordo com o Palmarès. Com exceção do grego – The Lobster, de Yorgos Lanthimos -, conservaria os mesmos vencedores, mas com outra disposição. Minha Palma teria ido para Chronic, de Michel Franco, o Grand Prix continuaria de O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, o prêmio de direção seguiria com Hou Hsiao-Hsien e minha luta seria para acomodar Dheepan e o Macbeth poderoso de Justin Kurzel, que nem entrou nas considerações do júri. Nemes fecha o quadro de Saul, Kurzel faz da paisagem, antes que a floresta se mova, a personagem grandiosa de sua tragédia. No meu imaginário o festival, que foi ‘bom’, está crescendo.