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Cannes (33)/Lava-jato romeno

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2016 | 11h58

CANNES – Reencontrei os Dardenne agora pela manhã. São tão calorosos, tão intelectualmente honestos – fico com pena de não haver gostado de La Fille Inconnue. Se o filme trata de culpa, e responsabilidade, fico me sentindo culpado. A propósito, e sem mencionar nomes, por favor, tenho tido momentos de depressão. Um coleguinha, e dos raros a quem respeito, me disse que Xavier Dolan precisava resolver seus problemas antes de seguir filmando. Como assim, resolver? Espero que não seja procurar a cura para a homossexualidade, como vive propondo aquele pastor congressista. Aliás, é uma pena que não exista vida após a morte. Adoraria estar presente quando a porta do céu fosse fechada para o animal em questão. De volta a Dolan, meu amigo reclamava de sua obsessão (a de Xavier) pela figura da mãe – J’ai Tué Ma Mére. Mommy e agora Juste la Fin du Monde, adaptado da peça de Jean-Luc Lagarce. Eu quero mais que Dolan fique fazendo sua terapia nos filmes. O cinéfilo que sou agradece. E ele merece com certeza o prêmio de mise-en-scène. Juste la Fin… só não é o filme mais bem dirigido do festival se considerarmos Sieranevada de Cristi Puiu, logo no primeiro dia. Mas ainda teve pior. Comentei, num determinado momento, em determinada atividade, que preferriia estar vendo o novo Hirokazu Kore-eda, que passava naquele horário, After the Storm. O amigo (in)sensível lascou – ‘Preferiria morrer a estar vendo Kore-eda.’ Não sei por que me surpreendo. Tal é o estado do mundo. Nesse quadro, vi hoje pela manhã o ‘outro’ romeno da competição, Baccalauréat. Cristrian Mungiu concorre à sua segunda Palma de Ouro, depois de vencer aqui em Cannes com Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias em 2007. O filme é coproduzido pelos Dardenne e parte da entrevista com Jean-Pierre e Luc foi dedicada a Mungiu. Não tenho vontade de tirar nenhum daqueles filmes que ontem foram para o meu panteão de Top Five. Talvez seja melhor instituir um Top Six. Pai e filha. O pai planejou (com a mulher) que a filha vá estudar na Inglaterra, para fugir à asfixiante Romênia. Mas as garota tem de passar no ‘bac’. Um dia antes, é agredida na ruas, quase violada, e surta. Papai resolve ajudar a filha usando de influência para que ela passe no exame, mas o encarregado das provas está sendo investigado e uma certa conversa foi gravada. Lava-jato na Romênia. A família implode para (tentar) recomeçar de novo, em novas bases. Gostei muito, mas não sei se a humanidade do filme está nos conformes das plateias que estão preferindo Toni Erdmann. O festival está chegando ao fim e o filme da alemã Maren Ade segue imbatível nos quadros de cotações. Premiado vai ser, com certeza, mas a Palma? Esperemos…