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Cannes! (33)/Fragmentos de beleza

Luiz Carlos Merten

25 Maio 2015 | 19h03

PARIS – Cheguei no começo da tarde – continuo cinco horas à frente de vocês -, mas vou acrescentar um derradeiro post com procedência de Cannes, para mais algumas considerações sobre o festival que terminou ontem. Enviei um texto sobre a repercussão dos prêmios outorgados pelo júri dos irmãos Coen. Não sei se foi diretamente para o portal ou se sai amanhã no impresso. É impressionante como as coisas passam rapidamente. O 68.º festival já pertence ao passado, mas algumas coisas – muitas – ficaram. Cenas, emoções, sentimentos. Dois irmãos veem morrer sua mãe, três irmãs descobrem que possuem uma quarta (irmã), um ex-soldado tamul (do Sri-Lasnk) cria uma falsa família para ganhar asilo e tentar reconstruir a vida no subúrbio francês, um pai judeu que trabalha para os nazistas nos campos de extermínio tenta fazer o enterro apropriado do filho, um enfermeiro consumido por um segredo dedica-se a acompanhar pacientes terminais, um triângulo amoroso complica-se no quadro das transformações econômicas e sociais que atingem a China, uma burguesa é chantageada pelo próprio marido que disputa a guarda da filha para puni-la por sua homossexualidade, um cinquentão amarga o desemprego. Tais foram os temas de alguns dos mais importantes filmes que concorreram à Palma de Ouro deste ano. Histórias de família, de perda, de morte. O cinema como espelho da crise, e do mundo. O patrão (John Turturro) tem uma cena de dança em Mia Madre, de Nanni Moretti. Hirokazu Kore-eda, em Nossa Pequena Irmã, reporta-se mais a Mikio Naruse, o Douglas Sirk japonês, que a Yasujiro Ozu. Por uma dessas circunstâncias da vida, e apesar das tensões, a família falsa termina unida por sentimentos verdadeiros em Dheepan, de Jacques Audiard. E em O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, a redução do quadro desorienta o espectador, que não consegue ‘ver’. É raro uma mise-en-scène que adote tal procedimento – ocultar, ao invés de esclarecer. No final, não sabemos nem mesmo se existe esse filho que Saul quer enterrar. Melô glacial, Carol, de Todd Haynes, pode não ser tudo aquilo que seus tietes proclamam, mas o olhar de Cate Blanchett para a câmera, na última cena, arrisca-se a entrar para a história. Nas demais mostras, em Um Certain Regard, Naomi Kawase levanta o véu da interdição sobre sobreviventes da lepra em An e Apichastpong Weerasethakul volta à floresta, agora seca mas nem por isso menos mítica, em Cemetery of Splendour, para falar de uma misteriosa doença do sono. Na Quinzena (dos Realizadores), Arnaud Desplechin fez sua falsa autobiografia ‘truffautiana’ no belíssimo Três Lembranças da Minha Juventude e Miguel Gomes fez da crise portuguesa a matéria-prima das 1001 noites. Pode até ser que o 68.º Festival não tenha sido ‘grande’, mas teve grandes momentos.