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Cannes (30)/E o protesto repercute

Luiz Carlos Merten

18 de maio de 2016 | 08h04

Cannes – É o que mais impressiona quando se está diante de Sonia Braga. Ela é ‘mignonne’, pequeninha. Na tela cresce, vira aquele mulherão. Dona Flor, a Dama do Lotação, a Mulher Aranha. Qual é o segredo. “A câmera me ama, eu sei”, ela resume. E acrescenta – “Mas eu a amo, também.” A montée des marches de Aquarius, ontem, aqui no festival de Cannes, fez o que os franceses chamam ‘la une’. Foi parar nas cadeias de TV, ontem à noite, e agora pela manhã está em todos os jornais. Na Inglaterra, foi parar na capa do The Guardian. No tapete vermelho do maior festival do mundo, os atores e o diretor de Aquarius, Kleber Mendonça Filho, portaram cartazes – “Está havendo um golpe de Estado no Brasil’, ‘O mundo não pode aceitar esse governo ilegítimo’ e ‘Chauvinistas, racistas e canalhas, os ministros’. Sonia havia se adiantado, subindo a escada de acesso ao Palais. “Estava de braço dado com ‘monsieur’ (o diretor artístico Thierry Frémaux. O protocolo é muito rígido em Cannes, mas quando olhei para trás e vi que o protesto havia começado, ele voltou comigo, de braço dado. Fizemos pelo Brasil.’ Dava para sentir a eletricidade no ar. “Os fotógrafos pareciam meio entediados, apenas mais uma equipe no tapete vermelho. E, de repente, criou-se o evento. A adrenalina explodiu. Só davas para ouvir os cliques e estouros de flashes, os gritos dos fotógrafos. Foi só um gesto, mas forte. Acredito mais em gestos que em atos’, avalia o diretor. Nos quadros de cotações dos críticos, houve alta aceitação para Aquarius. Muitas três estrelas, de ‘gosto apaixonadamente’, mas não a Palma, que seria a quarta, ‘de gosto à la folie, com loucura’. Muitos elogios para o diretor, por seu retrato do Brasil. E outros tantos para Sonia. “O brilho de Clara. A heroína de Kleber Mendonça Filho faz rir, chorar e dançar a Croisette’, celebra Le Fígaro, resumindo a impressão geral. Agora pela manhã, o diretor e seu elenco seguem emocionados. ‘Ainda não deu para processar tudo isso, mas estamos felizes, não só por nós, mas pelo povo brasileiro, que não merece mais esse golpe’, diz Sonia.