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Cannes! (2)/A ascensão de Furiosa

Luiz Carlos Merten

14 de maio de 2015 | 12h05

CANNES – Hoje pela manhã foi o dia de Mad Max na Croisette. Queria ver o Philippe Garrel na abertura da Quinzena dos Realizadores, L’Ombre des Femmes, mas antes fui ao palais para a sessão de imprensa de A Estrada da Fúria. Quem diz que eu parei de ver o filme naquela tela imensa? O novo Mad Max estreia hoje no Brasil. Como me disse o diretor na entrevista por telefone – que fiz durante o Recife -, é seu filme mais ‘musical’, entre o concerto selvagem de rock e a ópera. Estava outro dia na junket de O Vendedor de Passados e encontrei um coleguinha jovem, certamente bem-intencionado, mas que me formulou a seguinte pergunta – O filme (de George Miller) é tão ruim quanto penso? Confesso que fiquei chocado com o parti-pris. Ainda não vi e não gostei. É bem a atitude da concorrência. Lá, só se gosta antecipadamente das peças do patrão. Tive outro choque hoje – revendo Mad Max. Já havia escrito no Estado, e acho que no blog também, que Estrada da Fúria poderia se chamar The Rise of Imperator Furiosa/A Ascensão da Imperial Furiosa, porque ela praticamente transforma Max em coadjuvante de sua missão, ao sequestrar as mulheres de Immortant Joe e tentar levá-las às Terras Verdes. Alguém me disse que o filme era Velozes e Furiosos no deserto, sem história. Eu acho que tem bastante história, mas não contada linearmente. De cara, num monólogo interior, Max define-se como ‘sobrevivente’ e já inicia o filme numa perseguição desenfreada. Uma perseguição emenda na outra, estabelece-se o conflito entre Furiosa e ele, Charlize Theron e Tom Hardy, e de ambos com o personagem de Nicholas Hout. E esse, tal como o vi hoje, é a verdadeira alma de A Estrada da Fúria. Graças a Nicholas, viajei na cabeça de um terrorista. Como Warboy, seu sonho é destacar-se aos olhos do Immortant, que lhe promete o Valhala. Duas ou três vezes ele bate na porta, mas nunca dá certo. É um loser, o Immortant diz que é ‘medíocre’, ele se desespera, mas aí, graças ao toque da mulher, descobre o amor. Imagino que alguém vá achar banal, mas eu achei de uma beleza de cortar o fôlego. Num filme praticamente sem diálogos, só pauleira, como se humaniza os personagens pilhados na caçada humana? Para a maioria dos colegas, tenho certeza de que ver Mad Max hoje no Grand Théâtre Lumière foi o supra-sumo do recreio, do tobogã de emoções. Não foi à toa que o filme foi aplaudido em cena aberta, duas ou três vezes. Eu senti a dolorida humanidade/intensidade de cada personagem. E gostei. Recuperei depois o Garrel e é um belo filme. O curioso é que viajei hoje por filmes muito diferentes. Mad Max, Garrel, Hirokazu Kore-eda, Matteo Garrone. Daqui a pouco embarco na Naomi Kawase, que vai abrir Um Certain Regard, e emendo com o concorrente húngaro, O Filho de Saul. O que me encanta em Cannes é essa diversidade. O cinema do mundo é todos os cinemas, e eu fico nessa euforia, tentando dar conta de tudo.

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