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Cannes (29)/Saudade do Brasil

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2016 | 21h43

CANNES – Passei um dia agitado, porém maravilhoso, correndo para recuperar o Almodóvar, que havia perdido pela manhã, e para ver o Kleber. Continuo gostando demais do Jarmusch, e até tenho feito algumas reflexões bem amargas comigo mesmo. O filme está muito mal cotado no quadro de Le Film Français. Tem uma Paloma de Ouro, contra seis do alemão Toni Erdmann, e tem também bola preta e uma estrela, umas três, correspondentes a ‘gostei um pouco’. Pensei uma bobagem, confesso. Ando muito no Centro de São Paulo e ouço sempre aqueles pastores com seui mantra – ‘Cuidado quen o Cristo vai voltar e você precisa estar atento aos sinais.’ Vamos deixar o Cristo de lado. Estou pensando em Yasujiro Ozu, uma p… referência do cinema autoral. Paterson é, paras mim, um filme minimalista quen o próprio Ozu, se vivo fosse, gostaria de assinar. Mas os críticos se aborrecem. Gostam um pouco. Preferem a lição de vida da alemã Maren Ade. Entrevistei-a. É muito interessante, e bonita, mas o filme dela me pareceu um tanto calculado e outro tanto cínico. Não adianta. A internet deseducou as pessoas e hoje só um velho maluco como eu tem olhar para um filme sobre poesia, no qual não ocorre, aparentemente, nada – mas ocorre tudo. O público – os coleguinhas? – querem o choque vazio. O amante da executiva de Toni Erdmann se masturbando sobre o doce para ela lamber, todo mundo nu na festa. Já que está todo mundo em pelo, a grande sacada da diretora é fazer surgir aquele abominável homem das neves, todo peludo. Duas gerações atrás, Karel Reisz já usou o gorila para desestabilizar, no final, o mundo de Morgan, As Deliciosas Coisas do Amor. Não vim ao maior festival do mundo para dar uma marcha a ré no tempo, mas os outros, pelo visto, vieram. Maren fez cara de bunda, sorry, quando perguntei se conhecia Morgan. Seu público também não, e estão quites, achando que descobriram a pólvora (e estão fazendo coisas explosivas). Só gostei quando ela me disse que não pensava em Toni Erdmann como comédia, mas é assim que o público está vendo e ela está ficando convencida de que fez – mesmo – uma comédia. Jesus! Pedro Almodóvar, ele, fez uma tragédia. Tive de ouvir hoje de pessoas a quem respeito que o Almodóvar é ruim, ou pelo menos já visto. Queria morrer! Estou curiosíssimo para ver o que a Cristina de Bauru,. amiga do meu amigo Dib Carneiro, vai achar do novo Almodóvar. Cristina é a pessoa que mais entende de tragédia grega que conheço. Nesse quadro todo, confesso que terminei fazendo uma escolha errada. A caminho do Palais, passei pelo Cinema da Praia e vi a cena da bola em formato de mundo da versão restaurada de O Grande Ditador. Deveria ter ficado e esperado pelo discurso final do clássico de Charles Chaplin, mas fui ver O Planeta dos Vampiros, de Mario Bava, em Cannes Classics. Depois de Sonia Braga em Aquarius, Norma Bengell, outro mito, no Bava. Nicolas Winding Frn foi quem apresentou O Planeta dos Vampiros. Chamou o filme de melodramartic, operatic, campy, a zeist science fiction etc. E justificou seu envolvimento no restauro dizendo que Cannes, afinal de contas, merece assistir a bons filmes de vez em quando. Cabotinamente, deixou subentendido que teremos outro na sexta-feira – o dele, Neon Demon, na competição. Queria ter rido dos efeitos ‘geniais’ de Bava e dos seus diálogos e atores no limite do deplorável – a própria Norma! O problema é que aborreci-me tanto que os 88 minutos da duração me pareceram intermináveis. Saí do cinema e corri para o Café Roma, que é o Estadão (a lanchonete do Centro de São Paulo) daqui. Sem preconceito, é o lugar em que as p… de Cannes terminam a noite, e isso atrai todo tipo de cafajeste. Tinha ali em frente um grupo de brasileiros que todo ano faz shows de capoeira na Croisette. Isso e mais o filme do Kleber me deu uma saudade do Brasil! Concluí que poderia/deveria ter me poupado do Bava.