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Cannes (28)/Pedro Hitchcock Almodóvar: o thriller sem crime é um melodrama

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2016 | 12h15

CANNES – Tudo, em Julieta, remete a Alfred Hitchcock. O mestre dizia que filmava suas cenas de sexo como se fossem crimes, e as de crime como sexo. Julieta é um melodrama no formato de thriller. Não existe nenhum assassinato na história, mas a protagonista se sente culpada como se tivesse matado dois homens. Julieta se desenvolve como uma carta que uma mãe escreve para a filha que sumiu de casa há 13 anos. O filme baseia-se em três histórias de Alice Munro, de sua coletânea Fugitivas. Fim das rigoladas. O próprio Almodóvar veio a Cannes para confirmar o que a tela anuncia – a idade madura chegou. A Julieta culpada do presente escreve para a filha essa carta que não sabe se ela receberá um dia, para tentar fazê-la entender a Julieta, sua mãe, que foi no passado. Julieta temn dificuldade para aceitar que seu pasi tenha uma amante enquanto a mãe definha, mas é o que ela própria faz, ligando-se a um pescador cuja mulher está em coma. Julieta julga o pai – ele lhe pede que não seja muito dura -, mas nossa heroína também é julgada. O olhar inquisidor da caseira na casa de Xoan, o caçador, é outra herança de Hitchcock, como os encontros no trem, a trilha hitchcockiana e as relações venenosas entre mãe e filha. A caseira é Rossy De Palma, num emprego inabitual, ela que é uma das atrizes mais conhecidas de Pedro. De certa forma, Rossy é a Mrs. Danvers de Rebecca, a Mulher Inesquecivel. A carta não representa só um efeito dramatúrgico, ou terapêutico. Julieta leciona literatura grega -m assistimos, inclusive, a uma de suas aulas, quando ela explica como Ulisses quase se perdeu na Odisseia, atraído por Calipso. Julieta tem a simplicidade e a majestade de uma tragédia grega. Julieta fecha o ciclo do conhecimento de sua vida, um pouco como Clara em Aquarius. Mulheres perigosas. Gostaria de ter chorado no fim do filme do Kleber, mas tinha dez minutos para sair do Palais e entrar de novo, por outro lado. Tive de fazer isso correndo. Salvou-me a credencial branca. Cheguei esbaforido. O filme de Almodóvar foi me acalmando. No finasl, confesso que chorei (muito). Por Julieta, por Clara. Por mim. Pelo privilégio, pois é um privilégio para qualquer cinéfilo, de estar aqui, mais uma vez. A coisa começa a embolar. Jim Jarmusch, Kleber, Almodóvar. A disputa pela Palma intensifica-se.