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Cannes (26)/Verdades e mentiras

Luiz Carlos Merten

17 de maio de 2016 | 05h20

CANNES – Havia acrescentado o post anterior, sobre a apresentação de A Face Oculta (One Eyed Jacks) em Cannes Classics e somente agora pela manhã, checasdo e-mails, vi que o Telecine Cult mostra hoje o documentário de Stevan Riley, A Verdade sobre Marlon Brando. Vi outro dia a chamada sobre um filme do mercado, nem lembro qual. A verdade é apenas a última mentira. Não sei se é possível penetrar na complexidade de uma figura como Brando. Ontem mesmo lembrei como ele era caprichoso e infernizou a vida de diretores como Carol Reed e Stanley Kubrick, usando seu prestígio na indústria para demiti-los. Mas Brando pagou um alto preço. Os anos 1960 foram negros, perdão, sombrios em sua carreira, mas ele ressurgiu nos 70, graças a diretores como Francis Ford Coppola e Bernardo Bertolucci. E, de qualquer maneira, o jovem Brando era aquela coisa vital, poderosa. Sua T-shirt em Um Bonde Chamado Desejo – o filme de Elia Kazan chamou-se Uma Rua Chamada Pecado no Brasil -, o blusão de couro e a moto em O Selvagem e o discurso choroso de Sindicato de Ladrões, Kazan de novo, quando ele diz ao irmão (Rod Steiger) que poderia ter sido grande, esculpiram a lenda. Stevan Riley teve acesso a um material raro. Brando gravou durante anos, e aparentemente para si mesmo, depoimentos sobre sua vida e carreira. Documentou tudo – as lutas pelos índios, os problemas com os filhos e esse material constitui ‘a verdade sobre Marlon Brando’. É curioso como arte e vida integram-se (e completam-se). Brando nunca se esqueceu do hálito adocicado da mãe bêbada. Isso ajudou a definir o homem que foi e as relações com as mulheres. Seu personagem emblemático é sempre masoquista. Apanha em A Face Oculta e, mais ainda, em Caçada Humana, de Arthur Penn. Vai ser interessante, mesmo que eu não esteja 100% seguro de que seja ‘verdade’, ver o documentário desta noite (20 h aí no Brasil). Na sequência, o Telecine Cult exibe, às 22 h, Último Tango em Paris. Bertolucci não só escreveu o filme para Brando como lhe permitiu ser co-autor, improvisando em momentos chaves, definidores na construção do personagem. Brando, um americano em Paris, inicia essa relação sadomasô com Maria Schnmeider. Ela era apenas uma garota. Sempre jurou que Brando e Bertolucci abusaram dela na famosa cena da manteiga. (Aliás, por falar em abuso, Susan Sarandon, que veio aqui para uma programação sobre mulheres no cinema, provocou rebuliço ao esculhambar Woody Allen, ‘que abusou de uma criança e isso não é legal’, palavras dela.) Talvez seja uma visão masculina, mas a garota no filme de Bertolucci sujeita-se à sodomia para esconder os sentimentos. Todo mundo tem medo – sentimentos fragilizam. É um filme terrível. Tenho sempre minhas dúvidas sobre se é tão grande como gostaríamos que fosse. A parte godardiana, Jean-Pierre Léaud chatíssimo com sua câmera (e o filme dentro do filme), é conceitual, mas meia boca. Os monólogos de Brando – seu solilóquios – são a melhor coisa (com aquela trilha). É um belo programa, esse do Telecine Cult. E o negócio é esperar para que a Mostra e/ou o Festival do Rio levem A Face Oculta para o Brasil, ou que pelo menos a suntuosa versão exibida ontem aqui em Cannes saia em Blu-ray.