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Cannes (26)/Quantas palavras vale uma foto?

Luiz Carlos Merten

28 Maio 2017 | 06h14

CANNES – Roman Polanski tem sido mestre da provocação no festival. Há alguns anos, abandonou uma coletiva porque os repórteres estavam fazendo perguntas vazias. Há dois ou três anos, atacou as feministas ao falar sobre A Pele de Vênus, dizendo que achava repugnante o fato de um homem ofertar flores a uma mulher haver se transformado em algo indecente. E, ontem, na coletiva de seu novo longa – Baseado numa História Real, em presença da autora do livro, Delphine de Vigan, do roteirista (e cineasta) Olivier Assayas, e das atrizes Emmanuelle Seigner e Eva Green -, Polanski criticou o que chama de obsessão pela verdade e que se vê na TV e no rádio. Na verdade, segundo ele, é tudo falso e o que se percebe a toda hora é a verdade sendo assassinada para atender aos interesses de seus assassinos. Já estou esperando para ver o cineasta ser acusado de atentar contra a liberdade de imprensa, embora, obviamente, não seja o caso. E o 70. festival vai chegando ao fim. Daqui a pouco entrevisto Fatih Akin e Diane Kruger – por In the Fade – e depois é só esperar pela noite, pela premiação. Ontem, quando reclamei do prêmio da crítica para 120 Batimentos por Minuto, e não o fiz porque o filme de Robin Campillo seja ruim, mas porque certamente não honra a tradição de grandes filmes inovadores que já receberam o mesmo prêmio – como Hiroshima, Meu Amor, A Aventura e Memórias do Cárcere -, meu amigo português José Vieira Mendes me alertou. “Pois se prepare, porque vai ganhar do júri também.” Será? Para alguém tão renitente como eu ao poder da imagem – recuso-me a colocar fotos no blog -, tenho de admitir minha incoerência. Comprei uma Paris Match hors série, Cannes Intime, só com fotos ‘de légende’ (lendárias) que contam a história desses 70 anos. Jack Nicholsonj na capa, mas dentro a primeira imagem é de Grace Kelly. Foi um jornalista de Paris Match, Pierre Galante, marido de Olivia De Havilland, quem teve a ideia de fotografar a princesa de Hollywood nos suntuosos jardins do principado de Mônaco. Grace, pela manhã, tomara seu breakfast em La Napoule com o amante da vez – Jean-Pierre Aumont – e à tarde foi recepcionada pelo príncipe Rainier. O resto é história, como todo o mundo sabe. História! Quem é essa starlette de biquíni floreado? Brigitte quem? Ah, Bardot, fotografada em 1953, quando ainda não era, palavra cruel, ninguém. O nascimento do mito. E esse menininho que chora? Pablito Calvo, de Marcelino Pão e Vinho, a quem o júri outorgou uma menção em 1955. Em 1967, BB, fenômeno mundial, vem acompanhar o marido, Gunther Sacks, que apresenta o documentário Batouk. A escadaria que dá acesso ao palais tem exatamente 40 degraus, mas o tumulto é tão grande – o maior da história do festival? – que ela demora uma hora para chegar ao topo. A polícia intervém, não adianta. Anos mais tarde, ao escrever sua autobiografia, BB definirá aquela hora como o maior pesadelo de sua vida. Em 1968, quem é esse barbudo, meio Che Gueva? Louis Malle, entre François Truffaut e Roman Polanski, e no quadro também Jean-Luc Godard e Claude Lelouch, integra a vanguarda que paralisa o festival, solidária que sonham com a revolução, nas ruas de Paris. Polanski e suas revelações. Ele conta como, presidente do júri em 1991, terminou por revolucionar o festival. Seu júri queria premiar A Bela Intrigante, de Jacques Rivette, ele bancou Barton Fink, dos irmãos Coen. E não apenas a Palma de Ouro. Também os prêmios de direção e ator (John Turturro). Alarmada, a organização do festival baixa uma norma para que isso nunca mais se repita. E prosseguem as fotos lendárias – mamãe arrumando o terno do garoto Jean-Pierre Lèsaud ´psaras seu triunfo com Os Incompreendidos, de Truffaut, em 1959. E essa outra foto do mesmo ano. O que o jovem Alain Delon sussurra no ouvido de Romy Schneider? Qu’ils étaient beaux, como eles eram belos. Romy! Nesta segunda, 29, completam-se 35 anos de sua morte. As belas do tapete vermelho. Sharon Stone, em 2009; Gong Li e seu vestido bordado de pérolas, em 2016; Angelina Jolie, com seu Brad, em 2011. E, toujours, Sophia Loren, que, conta a lenda – e Paris Match avaliza – é a mulher mais fotografada da história do festival. Não falta nem Ilona Staller, aliás, Cicciolina, quase nua, ou melhor, com a maricotinha de fora, fazendo escândalo no tapis rouge, em 1988. Cannes completa 70 anos. Como diz o editorial da edição fora de série de Paris Match – “Não há nada igual no mundo.”