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Cannes (25)/Luz de tristeza

Luiz Carlos Merten

16 de maio de 2016 | 21h18

CANNES – Ainda bem que fui ver o Assayas, mas por um momento pensei em entrar na onda dos coleguinhas que não gostaram de Personal Shopper. Isso teria me permitido ver, em Cannes Classics, a versão restaurada de A Face Oculta. Na saída do Assayas, corri para a Sala Luis Buiñuel, onde ocorrem as sessões de clássicos. Não me deixaram entrar, insisti tanto, só para ver como estavam as cores, que o segurança me deixou espiar. Vi uma cena de Marlom Brando com Pina Pellicer. Aquela mulher não existia. Era minimalista mas intensa, uma Jeanne Moreau mexicana, embora na época, pela beleza e delicadeza, fosse chamada de Audrey Hepburn do México. Pina filmou pouco. Fez a mulher de Macário, o clássico de Roberto Gavaldón com Inacio López Tarso sobre um homem que dialoga com a Morte. Fez A Face Oculta, um episódio de Alfred Hitchcock Presents e outro drama com Gavaldón e Lopez Tarso, Dias de Otoño. Acho que foi só. Era depressiva. Suicidou-se em 1964, aos 30 anos. Quarenta anos mais tarde, em 2004, sua irmã Ana escreveu a biografia de Pina – Luz de Tristeza. A Face Oculta era para ser dirigido por Stanley Kubrick. Seria o western do grande diretor – Kubrick, vocês sabem, tinha o sonho de realizar obras-primas definitivas de todos os gêneros. Mas ele se desentendeu com Brando, que era o maior astro de Hollywood na época. Brando usou seu poder na indústria para demitir o diretor. Foram duas experiências traumáticas para Stanley – demitido por Brando e controlado pelo astro-produtor Kirk Douglas quando substituiu Anthony Mann em Spartacus. Depois disso, Kubrick decidiu que teria de ser seu produtor. E nunca mais fez um filme sobre o qual não tivesse controle absoluto. Como seria A Face Oculta de Kubrick? Jamais saberemos. O próprio Brando assumiu a direção do filme. Fez o western possivelmente mais neurótico e masoquista do cinema. A história já era bizarra. Uma trama de vingança desenrolada não nas planícies do Oeste, mas numa cidadezinha litorânea, à beira do mar. Conta a lenda que Brando ficava horas com a equipe parada esperando que as ondas ficassem borrascosas, como queria. Ele estourou o orçamento, claro, como estourou o de O Grande Motim, dirigido por Lewis Milestone, depois que o astro brigou com Carol Reed. Os filmes caríssimos deram prejuízo. Não se pagaram – mas A Face Oculta adquiriu reputação de cult. Brando virou veneno de bilheteria e iniciou a derrocada – para ressurgir, espetacularmente, com O Poderoso Chefão e Último Tango em Paris, dez anos mais tarde. Pelo pouco que vi, as cores de A Face Oculta estão magníficas. Vou torcer para que Renata de Almeida leve o filme para a Mostra.