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Cannes (25)/A Fipresci adere ao ecumenismo. E um iraniano excepcional

Luiz Carlos Merten

27 Maio 2017 | 20h19

CANNES – Fiquei com a impressão de que, como no Oscar, os envelopes foram trocados na premiação da crítica, na tarde deste sábado, no 70.º Festival de Cannes. O prêmio ecumênico foi para o belo e complexo filme da japonesa Naomi Kawase, Em Direção à Luz. O da Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, para o emocionante e comparativamente mais palatável, malgrado o tema, 120 Batimentos por Minuto, do francês Robon Campillo. O primeiro, um filme sobre a audiodescrição, como ferramenta para discutir o estado do cinema e do mundo. Deficientes visuais – não seremos todos, no cinema, onde a indústria faz filmes para os olhos, mas não, necessariamente, para o olhar? O outro, um filme militante, de luta – mas também de amor -, sobre o começo da aids. O combate aos laboratórios, ao governo do socialista François Mittérand, que se recusa a encarar a extensão da crise da saúde, os dramas individuais, a luta coletiva (do grupo Act-Up Paris). Havia filmes mais ousados para premiar – o da Kawase, mas tenho de reconhecer que ela não agrada a todo o mundo; o do russo Andrey Zvyagintsev, Nelyubob/Falta de Amor. Quando a crítica segue o caminho mais fácil – quem vai ser contra um filme coral sobre a aids? -, a expectativa é de que o júri presidido por Pedro Almodóvar restabeleça o vigor estético e político. Mas tem a contrapartida – e se o júri for pautado pela crítica e terminar por avalizá-la? Pedro, pelamor de Deus! Na premiação da mostra Un Certain Regard, o júri presidido por Uma Thurman atribuiu diversos prêmios. Um, chamado Poesia do Cinema, para Mathieu Amalric, por Barbara. O de direção, para Taylor Sheridan (a quem entrevistei, e a seu elenco, Jeremy Renner e Elizabeth Olsen), por Wind River; e o melhor filme, Lerd – Um Homem Íntegro, do iraniano Mohammad Rasoulof. Gostei demais, mas estou até agora tentando entender como o filme foi possível. Passa-se em algum momento de Khomeini no poder. Seu retrato está em todos os espaços públicos, o aiatolá aparece comandando soldados da revolução na TV. A pergunta que não quer calar – como um regime fundado na religião e na moralidade pode se corromper tanto? O homem íntegro conhece o inferno. Para dar a volta por cima, começa a fazer alianças. Não estará se corrompendo, também? É o Irã, mas a carapuça serve, hélas, para o Brasil. Estou pasmo. E só espero que Rasoulof não vire inimigo do regime, como Jafar Panahi.