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Cannes (25)/Alice chorou (in memoriam de Ermanno Olmi)

Luiz Carlos Merten

19 Maio 2018 | 04h43

CANNES – Hesitei se mantinha a procedência, porque o post, afinal, não vai ser sobre o festival. Ou talvez seja. Cannes homenageia hoje Vittorio Taviani apresentando Bom-Dia Babilônia no Cinema da Praia. Vittorio morreu em 15 de abril. Em 7 de maio, um dia antes da abertura do 71.º Festival de Cannes – estava em trânsito -, morreu Ermmano Olmi. Os Taviani ganharam a Palma de 1977, com Pai Patrão. Olmi venceu no ano seguinte, com A Árvore dos Tamancos. Estava entrevistando Alice Rohrwacher e comentei que sua descrição do mundo camponês em Lazzaro Felici tinha algo da pureza do cinema de Olmi. Alice chorou e, diante da emoção dela, eu confesso que também viajei na lembrança. A última vez que entrevistei Olmi foi por telefone, por Os Campos Voltarão, de 2014. Ele vivia isolado, em Bérgamo. Estava doente há tempos. Haviam me pedido – acho que a filha, ou a neta – que não o cansasse. Mas Olmi devia estar carente, sentindo-se velho e abandonado. Havia revisto Il Posto, aqui mesmo, em Cannes Classics. Desembestei a falar e ele entrou na minha. Ficamos um tempão viajando na lembrança de sua grande obra. I Fidanzati, Lunga Vita a la Signora, A Lenda do Santo Beberrão, O Segredo do Bosque Velho, Il Mestieri delli Armi. E ainda veio aquela experiência com Abbas Kiarostami e Ken Loach, Tickets. Em 1965, Olmi filmou o papa João 23. E Venne Un Uomo. Os humanistas da Sé – 50 e tantos anos depois Wim Wenders filmou outro papa, Francisco, Um Homem de Palavra, belo filme que vi em Cannes este ano. Rigor e humanidade. Como cinéfilo, como indivíduo, devo muito a Olmi. Sua morte estava passando em branco no blog. As lágrimas de Alice – sinto que estou sendo melodramático – o trazem de volta. Seus belos filmes que nos fazem melhor.