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Cannes (24)/Ainda o Ceylan

Luiz Carlos Merten

19 Maio 2018 | 04h11

CANNES – Fiquei ontem chapado com o Nuri Bilge Ceylan. Puta filme bonito. Passa-se num outono dourado, o que me lembrou uma das mais belas viagens de minha vida. Doris e eu fomos ao Chile, no começo dos anos 1970, pouco antes do golpe contra Salvador Allende. Atravessamos a cordilheira. O sol parecia despejar ouro e sangue sobre a neve e as folhas, caindo das árvores, forneciam aquele manto seco. Essas coisas não voltam mais. Ceylan filma uma família. O filho pródigo. Conversas cheias de ressentimento, mas também de… Falta-me a palavra exata. Que outro diretor, no mundo, colocaria seu protagonista tão revoltado e descrente a conversar com dois ímans para tentar desvendar o pensamento do Profeta no mundo cada vez mais volátil? Escrevi ontem à noite, às pressas, o texto que está hoje no Caderno 2. Palma para Ceylan? Duvido que, nesse ano de superexposição das mulheres, o júri de Cate Blanchett vá premiar um filme tão masculino quanto Ahlat Agaci. The Wild Pear Tree. A árvore – a pereira – dos frutos selvagens. Mas imagens desse filme vão me acompanhar para sempre. Siran, o protagonista, reencontra uma antiga paixão. O que dizem é menos importante que o que escondem. O vento bate na árvore, as folhas caem. Charles Trenet/François Truffaut – que reste t-il de nos amours? Aposto como meu colega Luiz Zanin vai sentir essa mesma emoção. Volto ao começo. Se não for o filme do último dia terá de ser do primeiro. Leto, O Verão, de Sirill Serebrennikov. Mas vai ser um ano difícil para o júri decidir. Não existe a polarização do ano passado entre The Square e 120 Batimentos. Melhor ator para Marcello Fonte, o Buster Keaton de Matteo Garrone em Dogman. Melhor atriz para Zhao Tao, mas não sei se isso não seria valorizar demais o novo Jia Zhangke, que, para mim, anda de mal a pior. Ash Is the Purest White olha de novo a hiksatória da China – 15, 20 anos, agora pelo ângulo da criminalidade. Como no polonês Cold War, Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski, outro casal que não consegue viver junto nedm separado. Paw filma bem, em suntuoso preto e branco, mas não tem o dom de Ceylan para o diálogo. Le Figaro decretou que a Palme de Plomb, a Palma de Chumbo de pior filme vá para Lázaro Feliz – uma injustiça com Alice Rorhwacher. Eva Husson (As Filhas do Sol) e Yann Gonzalez (Un Couteau dans le Coeur) merecem muito mais, por direito. Vanessa Paradis, pelo Gonzalez, é a pior atriz – não do ano, mas da história do festival, ever. À tarde, saem os prêmios da crítica. À noite, os do júri. O 71.º festival despede-se. Mais um festival, menos um, na tradição de Mario Peixoto.