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Cannes (23)/Chumbo para Michael Haneke? Happy end, my ass

Luiz Carlos Merten

27 Maio 2017 | 05h52

CANNES – Estou indo recuperar o filme de Lynne Ramsay, último da competição, que perdi na sessão de imprensa de ontem à noite. A escocesa Lynne é a diretora de Vamos Falar de Kevin, mas não creio que You Were Never Really Here vá fazer muita diferença nesse final de festival. Joachin Phoenix pega em armas para resgatar a filha de um político, que foi sequestrada na suíte de um affair envolvendo corrupção. Os últimos filmes de gênero, de ação, da competição, estão sendo bem decepcionantes. O thriller erótico/psicanalítico de François Ozon, O Amante Duplo. O relato de vingança de Fatih Akin, In the Fade. À tarde, a Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica, outorga seus prêmios. Pela manhã, conferi no café, o jornal Le Figaro, como faz todo ano, divulgou seu Palmarès. Palma de Ouro para o sueco Ruben Ostlund, de The Square, sobre o qual sinto que não falei muito, e menos ainda no impresso. Ostlund é considerado o enfant terrible do cinema sueco pós-Ingmar Bergman. Ironiza as posturas e imposturas da arte moderna – como ressalta Figaro (o personagem é um diretor de museu). De alguma forma me lembra Michael Haneke, quando surgiu. Gosto pela provocação, gérmens de misantropo. O filme tem uma cena de performance – anotem aí, para quando virem o filme na Mostra. É definidora. Ame-o ou deixe-o (o filme). Figaro também atribui sua Palme de Plomb, Palma de Chumbo, ao pior filme. Nunca pensei que veria Haneke descer a esse ponto do seu pedestal – Happy End. Final feliz my ass. Não para Michael. Figaro atribui seu prêmio de melhor ator para Louis Garrel, pelo Jean-Luc Godard de Le Redoutable, de Michel Hazanavicius, que rebatiza como O Insuportável (Godard é, no filme). A melhor atriz é a russa Mariana Spivak, de Falta de Amor, de Andrey Zvyagintsev – que é a minha Palma de Ouro (com o filme de Naomi Kawase, Em Direção à Luz). E o prêmio do júri de Figaro vai para 120 Batiments par Coeur, de Robin Campillo, que causou comoção por seu relato sobre um grupo militante no início do combate à aids. Campillo virou uma unanimidade de público – um monte de estrelas nos quadros de cotações, a Palma (do coração) de muita gente. Tenho pensado muito no filme dele. Por que, justamente agora, evocar as batalhas de um combate que já pertence à história? Tenho minha interpretação. Estou atrasado para a Lynne Ramsay. Depois retomo o assunto.