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Cannes (20)/Lynch!

Luiz Carlos Merten

26 Maio 2017 | 09h52

CANNES – Ainda não consegui deglutir In the Fade, penúltimo filme da competição, que vi agora pela manhã. Diane Kruger, atriz alemã de língua inglesa, tem seu primeiro grande papel no cinema de seu país. Faz a mulher de um curdo, ex-traficante. O marido e o filho são mortos por neonazistas. O filme divide-se em três partes – Família, Justiça, Mar. A defesa tenta desacreditá-la como drogada. O morto, de vítima, vira culpado. Só resta a Diane pegar em armas, vingar-se. Se fosse uma versão feminina de Liam Neesom, ela ia lá e abatia todo o mundo. O diretor turco-alemão Fatih Akin tenta ser um pouco mais sutil, mas seu filme dividiu. Alguns aplausos, muitas vaias. Muitos aplausos, em contrapartida, para David Lynch, que mostrou os dois primeiros capítulos da terceira temporada de Twin Peaks, sob a rubrica ‘Evento do 70.º Aniversário’. Confesso que não sou lynchiano de carteirinha. Gosto de Veludo Azul, de História Real. Acho previsível demais o imaginário visual do autor – aquelas cortinas vermelhas, os pisos de formato xadrez, os sofás e mesas que remetem a um design antigo. E os personagens – uma bizarrice programada, fake do fake. O próprio jeito de filmar, como se aquela mistura de surrealismo e sobrenatural truncasse o relato. Malgré tout, quando me dei conta já estava envolvido na série de assassinatos. O que é aquela coisa que salta da caixa misteriosa que o guardinha devia vigiar, mas a mulher veio tentá-lo a fazer sexo e danaram-se os dois? Quem matou a bibliotecária e ainda seccionou sua cabeça, colando-a naquele corpo disforme? E por que o próprio agente Cooper, com outra aparência, está matando?Essas bizarrices mexem mais comigo do que o restante todo. Twin Peaks já estreou nos EUA no canal Showtime. Imagino que, no Brasil, também já esteja estreando. Insisto que, embora não seja lynchiano, o novo Twin Peaks, cumprindo a promessa de Laura Palmer – ‘Nos veremos em 25 anos’-, me produziu um estranhamento bem perturbador.