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Cannes (18)/O que é ‘ousado’?

Luiz Carlos Merten

15 de maio de 2016 | 07h15

CANNES – Só para complementar o post anterior – ao contrário de Dino Risi, que se tornou uma unanimidade da coméddia italiana, Pietro Germi foi sempre discutido e até renegado por minha geração. Jefferson Barros o achava grosseiro e vulgar, Enéas de Souza debochava o humor macarrônico. Eu gostava, eventualmente, do Germi diretor, mas acho que preferia o ator. Gostava de vê-lo dirigir-se – em O Ferroviário, Aquele Caso Maldito. E o tenho vivo na lembrança em Caminho Amargo/La Viaccia, que é meu Mauro Bolognini preferido, com Jean-Paul Belmondo e Claudia Cardinale. Germi talvez fosse limitado como ator, confinado na representação de um tipo de personagem, mas eu gostava dele. Queria fazer o registro. E, agora, vamos lá. Acho que vou ser voto vencido. Toni Erdmann, da alemã Maren Ade – que vou entrevistar amanhã -, foi um filme que me desconcertou. Não diria que gostei, e o que todso mundo ama – o dersfercho com o gorila, que vocês vão entender quando virem -, me pareceu cópia deslavada de um Karel Reisz dos anos 1960, Morgan, que a maioria dos jovens que estão amando Toni Erdmann tenho certeza que desconhece(m). Morgan, com David Warner e Vanessa Redgrave, chamou-se, no Brasil, Deliciosas Loucuras de Amor.Toni é campeão de Palmas, a cotação máxima no quadro diário publicado pela revista Le Film Français. Cinco Palmas de Ouro! Em segundo, vem, Ma Loute, de Bruno Dumonmt, com quatro. Tenho certeza de que amanhã o quadro vai ser negativo para Mal de Pierres, de Nicole Garcia, que vi agora pela manhã. Tinha expectativa pelo filme, que foi um dos raros de que li a sinopse. Marion Cotillard vai fazer uma cura nas águas termais e se envolve com um militar – Louis Garrel em seu papel de belo tenebroso. Apesar dos estilos diferentes dos filmes, achei as mulheres gêmeas. A alemã é focada no trabalho e precisa de um choque de realidade que lhe proporciona o pai mala. A francesa é excessivamente romântica, causa embaraço à família correndo atrás de um homem que não a quer. Casa-se sem amor, vive uma fantasia com o militar e também precisa de um choque de realidade que eu não vou contar como vem, para não tirar a graça. Mal de Pierres é clássico e romanesco, como achei que seria. Marion é sempre perfeita fazendo esse tipo de mulher consumida por uma ideia autocentrada do amor, mais que pelo sentimento em si. Confesso que me pareceu uma mala e, em alguns momentos, tinha vontade de subir na tela e esbofeteá-la, para parar com aquela histeria. Cai na real, mulher. Ela cai, mas demora -como a alemã de Maren Ade, também. Talvez seja geracional. Mal de Pierres é ‘antigo’, um novelão, como ouvi hoje, embora eu talvez o tenha visto de outro jeito. Pensei todo o tempo no excesso de Emmanuelle Riva em Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais (e Marguerite Duras). Emmanuelle, como ela mesma dizia, não era raisonable. Nem Marion, aqui. Maren Ade, em comparação com Nicole Garcia, é ‘transgressora’. Quer dizer – Morgan, e Reisz, eram transgressores, há quase 50 anos. Hoje… O excesso de imaginação de Marion ou a crueza da protagonista feminina de Maren, pedindo ao amante que se masturbe e goze no doce para ela lamber… Estou começando a crer que nessa era de vale tudo da internet, talvez fosse bom ‘substituir’, entendem? A ousadia é ser clássico.

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