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Cannes (18)/ Ozon, entre Cronenberg e… Almodóvar?

Luiz Carlos Merten

25 Maio 2017 | 19h27

CANNES – Mas que m… o François Ozon! Está para estrear no Brasil um novo filme dele que estou louco para ver – Frantz. O novíssimo está aqui na competição, L’Amant Double, O Amante Duplo. Confesso que, no início, estava adorando ver. Marina Vacth faz uma mulher que se queixa de dores no ventre e a médica a aconselha a procurar um psiquiatra. Os exames não acusam nada, o problema pode estar na cabeça. Marina procura o dr.Jeremie Renier e se torna sua amante. Meu voyeurismo ficou perfeitamente satisfeito. Marina é uma coisa assombrosa. Linda e sexy demais, mas a surpresa é Jeremie. De onde Ozon tirou que aquele fracote dos filmes dos irmãos Dardenne tinha pegada? Pois tem! A eletricidade corre na tela e eu só esperava o momento em que aquilo ia ocorrer. Vão morar juntos e aí Marina, que se chama Chloe, descobre que ele possui um lado sombrio. O filme passa a viajar no temas do duplo, ou dos duplos. O erotismo vira suspense, dá lugar ao guignol sanguinolento. Menos, Ozon, menos. Confesso que gostei bem mais de Jovem e Bela, que concorreu aqui mesmo em Cannes, em 2013. Marina Vacth já era a protagonista, como uma garota de 17 anos, de classe média alta, que se prostituía por prazer. Ozon, gay de carteirinha, foi crucificado como machista, mas o filme tinha uma perversidade à Luis Buñuel que me pareceu bem perturbadora. Mas era o ano de La Vie d’Adèle, Azul É a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche, e o sexo, segundo Ozon, foi atropelado pela história das duas garotas. No caso de O Amante Duplo, fiquei com a impressão de que Ozon talvez tenha querido fazer o seu David Cronenberg. As mutações dos corpos que transformam as pessoas em monstros. Os gêmeos, mórbida semelhança. creio que ainda não será dessa vez que Ozon levará alguma coisa, mas e se o lado fantástico da trama agradar ao Pedro Almodóvar de A Pele Que Habito, por exemplo? Pensando bem, não seria tão absurdo, não.