As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cannes (16)/Lixo americano

Luiz Carlos Merten

14 de maio de 2016 | 20h14

CANNES – Há dez anos, em 2006, Andrea Arnold integrava a competição da Caméra d’Or, quando integrei o júúri presidido pelos irmãos Dardenne. Ela concorria com Red Road, que se chamou Marcas da Vida no Brasil. Fez depois Fish Tank, que ganhou o título de Aquário, o mesmo do filme de Kleber Mendonça que participa da disputa pela Palma deste ano. Em geral, não tenho muito apreço pelo cinema de Andrea, mas gostei de American Honey, que vi agora à noite e participa da competição deste ano. Gostei mais de que Toni Erdmann, da alemã Maren Ade, que está virando o xodó da jovem crítica, ou da crítica jovem. E olhem que, no começo, estava resistindo. O filme é sobre white trash. Abre-se com a protagonista, Star, cavoucando no lixo para alimentar o casal de filhos – que, na segunda ou terceira cena, abandona para cair na estrada com um grupo que viaja pelos EUA vendendo livros. Na verdade, o que motiva Star, além de sua óbvia nenhuma vocação para ser mãe, é a atração que sente pelo personagem de Shia Labeouf. Ele recruta garotas para a caravana de vendedores, e eventualmente fuck them, como diz Crystal, a líder do grupo. Star, que também não tem vocação para vendas, faz um jogo meio perigoso, no limite das prostituição. A maioria dos coleguinhas achou que o filme é uma espécie de Kids atualizado, mas não concordo. Larry Clark não entra no meu panteão de jeito nenhum. Andrea filma bem – a fotografia é linda, os atores, ótimos -, mas, no limite, o que mexeu comigo foram esses jovens inseridos na economia de mercado, porque competem entre si, a socos, para vender, mas que, ao mesmo tempo, são completamente outsiders, em seus jogos de sexo e drogas, e no estilo despossuído, meio hippie, de levar a vida. A garota que faz Star chama-se Sasha Lane. É estreante, mas, cortesia de Rodrigo Salém, que me passou a informação, descobri que faz um novo seriado de TV que está estreando por estes dias. The Preacher baseia-se numa HQ de terror e está sendo vendido para ser o acontecimento do ano entre jovens. Pela amostra do filme, Sasha é (muito) boa.