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Cannes (15)/O purgatório e o inferno

Luiz Carlos Merten

24 Maio 2017 | 20h27

CANNES – Terça à noite, quando voltei da sessão da Rodin, nem consegui dar conta da minha decepção pelo Jacques Doillon. Tive de enterrar o Roger Moore para o 2, tinha as matérias do dia. O curioso, inesperado, foi como o Rodin e o ‘Godard’, Redoutable, me pareceram próximos. Dois grandes artistas, dois porres de homens, ambos flagrados em momentos de crise de criação. Jean-Luc, no Maio de 68, contestado por A Chinesa, seu manifesto maíosta. Rodin, pela estátua de Balzac, marco da escultura moderna, mas alvo de duras críticas na época. Dois homens enrolados com suas mulheres. Auguste, com Camille Claudel. JL, com Anne Wiazemsky. Dois homens que não sabem, ou não podem amar. Redoutable teve palmas discretas, e muitas risadas durante a sessão, pela interpretação de Louis Garrel. Rodin não teve aplausos nem vaias. Só indiferença, um silêncio mortal. Doillon já foi melhor. Nesta manhã, houve a Sofia Coppola. The Beguiled. Existe um olhar feminino no cinema? O filme parece sob medida. A mesma história – um soldado do Norte esconde-se num internato de mulheres, durante a Guerra Civil dos EUA e provoca o desejo das garotas e professoras – foi filmada por Don Siegel com Clint Eastwood em 1971. O Estranho Que Nós Amamos. O título era sob medida para pegar carona no estranho sem nome que Clint interpretara nos spaghetti westerns de seu outro mestre, Sergio Leone. Siegel, que veio da montagem, tinha uma direção de cena forte. Nos dois filmes, no de Sofia e dele, há uma amputação que funciona como castração simbólica. Siegel é extremamente violento, mas, naquele tempo, superado o código de censura da indústria, os diretores iam fundo como ousadia. Sofia filma o efeito desestabilizador da presença de Colin Farrell no internato. Seu filme chama-se Les Proies na França. As mulheres são as presas de Colin ou ele é a presa delas? Sofia não mostra a amputação, que fica fora do quadro. O filme dela é cheio de portas fechadas. Foi o que achei mais interessante. E hoje veio o Sergei Loznitsa. Tenho encontrado Amir Labaki seguido. Tivemos a mesma impressão sobre Uma Mulher Doce. Se o Brasil de Temer virou um purgatório, a Rússia de Putin é o inferno. O horror, o horror. A violência do filme me deixou arrepiado. E o mais curioso é que Robert Bresson já havia, em 1969, adaptado a narrativa de Dostoievski, com Dominique Sanda. Nenhum dos dois diretores foi fiel ao autor russo, usado como ponto de partida, e o que ressalta é que os filmes são diferentes como o são os de Don Siegel e Sofia Coppola.