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Cannes (12)/O Rei de Copas

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2016 | 21h04

CANNES – Entrevistei ontem – já estou no sábado, cinco horas adiante de vocês – Marco Bellocchio. Amei seu filme, Fai Bei Sogni, e sei que Renata de Almeida amou também. Espero que ela o leve para a Mostra. Espero que leve Bellocchio. Puxei uma conversa sobre os filmes de Paolo Sorrentino e Matteo Garrone, que concorreram em Cannes no ano passado9, e estão em cartaz no Brasil. Dois filmes em língua inglesa. Queria alguma declaração de Bellocchio sobre essa ‘globalização’ do cinema italiano. Invece, quando ele disse que obras-primas do cinema italiano foram dubladas por seus diretores, citou Senso/Sedução da Carne, e descobri que é o Visconti dele, pelo fervor com que falou do filme. A entrevista com Bellocchio estará no Caderno 2 de domingo, com parte da entrevista que fiz com Garrone, em 2015. O espaço era pequeno, espero não ter traído o grande Marco. Voltando agora para o hotel, percorri a Rue d’Antibes e, se precisasse mais uma vez, dei-me conta de quanto amo isso aqui. Cannes, Paris, sinto-me em casa nesse festival, como em São Paulo e Porto Alegre. Como tinha matérias para as edições de sábado e domingo, terminei perdendo a primeira sessão de imprensa do filme da noite, que passa às 7 (19) na Sala Claude Debussy e, às 10/22, na André Bazin. Por isso mesmo, como tinha tempo, vim flanando pela Croisette. Passei pelo Cinema da Praia e vi o começo de Roi du Coeur/Esse Mundo é dos Loucos. Sempre tive o maior carinho por Philippe de Broca, o único comediógrafo da nouvelle vague. Creio mesmo que O Amante de Cinco Dias, com Jean-Pierre Cassel e Jean Seberg, é uma das obras-primass da nova onda e nunca entendi – ele nem deve se lembrar – porque Enéas de Souza deu bola preta para Cartouche, com Jean-Paul Belmondo e Claudia Cardinale, que eu amava. Mas Phillipe de Broca, para mim, é sobretudo o diretor de O Homem do Rio, de O Magnífico e de Rei de Copas. Le Roi du Coeur. Alan Bates chega, com seu batalhão, a essa pequewnma cidade que foi desertada pelos seus habitantes. Sobraram os loucos, que fogem do hospício e se tornam, por assim dizer, ‘a normalidade’. Bates se apaixona pela trapezista, Cocquelicot/Genevieve Bujold, no papel de sua vida. Revi o começo, e foi tão lindo. Reportei-me aos meus 20 anos – 23 -, quando a gente acredita na utopia e que poderá mudar o mundo. Quase fiquei por ali, mas tinha de ir para a sessão de imprensa da competição. Esse Mundo é dos loucos ficou comigo. Numa associação louca, lembrei-me da euforia de Emmanuelle Riva, bebendo com seu japonês em Hiroshima, Meu Amor. “Dieu, que j’ai eté jeune un jour.” Eu também fui (jovem). Quero crer que continue sendo – no coração, apesar dos meus 70 anos. Filmes como esse e o de Ken Loach, que, coincidentemente, vi hoje, alimentam minha crença de que um outro mundo TEM de ser possível.