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Cannes! (12)/À esquerda e à direita, o mesmo horror

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2015 | 21h14

CANNES – Pela manhã, tinha um encontro agendado com Pierre Lescure, o novo presidente do Festival de Cannes. O horário não me permitiria ver na íntegra o longa da competição e escolhi um filme mais curto. Amei Les Deux Amis, de Louis Garrel, que achei até melhor que o filme do pai dele, Philippe, L’Ombre des Femmes, do qual já havia gostado bastante. A Imovision vai distribuir Os Dois Amigos no Brasil. Preparem-se! Terminei recuperando Sicario, de Denis Villeneuve, à tarde, depois de entrevistar Apichatpong Weerasethakul, cujo belo Cementery of Splendour, integra Um Certain Regard. Já entrevistei Apichatpong tantas vezes, mas é sempre interessante retomar essas velhas conversas sobre sonho e maladie, os temas que o obcecam. Ainda estava sob o efeito de Cemitério do Esplendor quando vi o novo Villeneuve. Emily Blunt integra uma equipe que age na fronteira mexicana. Policial formada em direito, ela faz o duro aprendizado de que a instituição nem sempre reza pela cartilha da legalidade. Tive a impressão de estar vendo um Z às avessas. No clássico de Costa-Gavras, um governo de direita faz de tudo para apagar os vestígios de sua participação no assassinato de um político da oposição. Em Sicário, sob um regime ‘democrático’, os métodos continuam sendo exatamente os mesmos, agora aplicados na caçada a um poderoso traficante. E, depois, no filme de Jia Zhang-ke, Mountains May Depart, as ideologias caem por terra e esquerda e direita são substituídas pelo novo deus no poder, o dinheiro. O festival deste ano está sendo muito ‘social’, foi o tema de minha conversa (ÓTIMA, com maiúscula) com M. Lescure. Cartel das drogas, Benício Del Toro, muita coisa em Sicário pode fazer pensar em Traffic, de Steven Soderbergh, mas, sorry, Villeneuve é melhor. Posso até achar que Jake Gyllenhaal, como jurado, vai defender com garra seu amigo Villeneuve, com quem já filmou quantas vezes? – Três, acho -, mas não creio que um diretor, por mais autor que seja, fazendo cinema comercial (de mercado) como opção estética, possa obter o aval dos farsantes Coen(s). Em uma coisa creio. Se esse júri for decente, Benicio Del Toro poderá repetir seu prêmio de melhor ator aqui na Croisette, que recebeu como o Che de Soderbergh.

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