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Cannes (11)/Sangsoo e Gitai, a ficção, o documentário e o cinema que nos ajuda a entender o mundo (e a nós mesmos)

Luiz Carlos Merten

22 Maio 2017 | 14h03

CANNES – Fico mandando as notas para o portal, fazendo entrevistas, vendo filmes. Não tenho tido tempo para o blog. Elogiei o Todd Haynes, Wonderstruck, e agora não estou tão seguro de que o filme, apesar de suas qualidades, seja bom como me pareceu. Está se desvanecendo, enquanto o russo – Faute d’Amor/Loveless, de Andrei Zvyagintsev – não para de crescer. Escrevi no online que o Michael Haneke, Happy End, é dos bons, mas o velho Haneke de sempre. Misantropo. Uma família rodrigueana. A vida como ela é. Jean-Louis Trintignant é o patriarca e sufocou a mulher terminal – de novo, já tínhamos visto em Amor. O velho tenta se matar, não consegue. Corre atrás de refugiados para que completem o serviço. Os pobres caras, como se não bastassem seus problemas, têm de fugir dele. Sua salvação às avessas pode ser a neta, garota e suicida, que ele não reconhece e passa o filme perguntando quem é? A humanidade tem solução? Happy end? Só pode ser ironia. Vi hoje um belo Hopng Sangsoo. O sul-coreano está com dois filmes em cannes – A Câmera de Claire, fora de concurso, e The Day After, na competição. Sangsoo já ganhou em Berlim o prêmio de interpretação feminina para Kim Minhee, em In the Night at the Beach Alone. Três filmes em dois grandes festivais – esse cara não é fraco. O mais nouvelle vague dos diretores em atividade. Ecos de Minha Noite com Ela, de Eric Rohmer. Um escritor e a garota que a muçher dele pensa que é sua amante – Kim Minhee. Vai alguma ironia nisso? Na Coreia do Sul, no ano passado, muito se falou sobre Hong Sangsoo, mas pelos filmes e sim porque ele teria um affair com a bela Kim, de A Criada, por quem inclusive teria abandonado a mulher. Como todo Hong Sangsoo, The Day After mostra o casal, o escritor e a presumível amante, bebendo e conversando. Conversando e bebendo. Não rola nada entre eles – a garota é católica, resiste, como o jansenista Jean-Louis Trintignant, que não cede aos avanços de Françoise Fabian em Ma Nuit chez Maude. Maravilhoso. Dispenso a tragédia do grego Yorgos Lanthimos. Ecos de Eurípedes, Ifigênia. O médico Colin Farrell é punido pela maldição do filho de um paciente que morreu na mesa de cirurgia. Os filhos começam a morrer. Olho por olho. Se ele não completar o serviço, matando um, morrerá todo o mundo. Mas é uma fixação desses europeus – Haneke, Lanthimos. Eu, hein? Além do Hong Sangsoo vi outro filme ótimo. Um documentário de Amos Gitai, West of the Jordan River. Em 1994, Gitai havia entrevistado Yitzhak Rabin, que iniciara conversações de paz com Yasser Arafat. Rabin foi assassinado (por um judeu), Arafat perdeu sua credibilidade face à radicalização crescente das intifadas. Gitai continua tentando entender o Oriente Médio. Não existe solução se continuar a colonização dos territórios ocupados. Gostei demais do Gitai. Dois grandes documentários – o de Barbet Schroeder – e ainda não vi o Napalm de Claude Lanzmann. Sandrine Bonnaire preside o júri do Olho de Ouro, para o melhor documentário. NO ano passado, ganhou Cinema Novo, de Eryk Rocha. E em 2017? Candidatos não faltam…