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Cannes! (11)/Permanência de Z

Luiz Carlos Merten

19 de maio de 2015 | 20h43

CANNES – Amigos aqui em Cannes queixam-se de que ficou impossível acionar o blog. Devo comprar alguma briga com alguém poderoso, mas fazer o quê? Estou vivendo situações absurdas. Meu cartão de débito do Bradesco não está me permitindo sacar. Diz que o cartão não é válido ou que a operação não é permitida pelo banco que, enquanto isso, pode girar com meu dinheiro estacionado na conta. Ligo para os números que o próprio cartão oferece e só consigo obter saldo. A quem vou me queixar? No blog, a situação ficou mais absurda ainda. É o ‘meu’ blog, que faço por prazer, não por dinheiro e desde ontem me vinha sempre a mesma mensagem – access denied, assim mesmo em inglês. Como assim, acesso negado, no ‘meu’ blog? Em algum momento sei que vou conseguir validar esse post, o que faço agora, por isso continuo. Até por esses problemas, não tinha conseguido dar conta de coisas que estão ocorrendo aqui em Cannes. Falei outro dia da minha emoção ao rever no domingo, em Cannes Classics, Rocco e Seus Irmãos. Na segunda, de novo cavei tempo na minha agenda de filmes e entrevistas para ver… Z, de Costa-Gavras. O espectador que vai hoje para a rua gritar slogans contra a presidente Dilma e tem acesso ao panorama do cinema mundial não sabe o que foram os anos de chumbo. Z foi um dos muitos filmes que entraram no índex de obras proibidas pela ditadura. Foi emocionante rever o filme restaurado em 4K, em presença de Costa-Gavras. Nunca me passou pela cabeça antes, mas e se Krzystof Kieslowski tiver escolhido Jean-Louis Trintignant para ser o juiz penitente de A Fraternidade É Vermelha por seu papel aqui? Z continua impecável como exemplo de resistência contra o arbítrio. Todos nós que vivemos em redações de jornal naqueles anos duros temos muitas histórias para contar, mas poucos saberíamos contá-las tão bem quanto Costa. Ocorreu uma coisa curiosa que não me furto a relatar. Nada como o tempo para expor o ridículo. Costa-Gavras é presidente da Cinemateca Francesa. Serge Toubiana, ex-Cahiers du Cinéma, é diretor artístico da casa. Cahiers sempre foi contra o cinema de Costa-Gavras, definindo seus thrillers como reformistas. Cahiers, na fase de capa amarela, quando ainda tentava firmar a nouvelle-vague, caía matando nos diretores que François Truffaut desmoralizara em seu célebre artigo sobre uma certa tendência do cinema francês, o chamado cínéma de qualité. René Clément foi o diretor mais premiado da história do Festival de Cannes, mas Cahiers o hostilizava – claro! -, como hostilizou depois Costa-Gavras Há dois anos, vi Toubiana aplaudir de pé O Sol por Testemunha, quando a versão restaurada do filme de Clément foi apresentada por Alain Delon em Cannes Classics. E ontem vi Toubiana aplaudir de pé Z, e Costa-Gavras. Estava mantendo o emprego ou reconhecendo que Cahiers muitas vezes pisou na bola? Como admirador de Plein Soleil e de Costas-Gavras, espero que tenha sido pelo segundo motivo.

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