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Cannes (11)/E o mais aplaudido, até agora, foi… Loach!

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2016 | 11h32

CANNES – Nosso comunista preferido, Ken Loach, está de volta a Cannes com seu velho discurso contra a globalização. Os partidários da privatização e da terceirização dirão que ele está superado, mas, e foi surpreendente, I. Daniel Blake, foi o filme mais aplaudido até agora nas sessões de imprensa. Uma verdadeira ovação sacudiu o Palais e os aplausos prosseguiram durante todos os créditos. A surpresa está ligada ao que foi descrito num post anterior. Na cerimônia de abertura da Quinzena dos Realizadores, o público impaciente apressou o final do discurso do representante da Sociedade dos Realizadores, madrinha da seção. Ele clamava (no deserto) contra o desemprego no setor. Seu discurso, ficcionalizado por Loach, provocou outro tipo de reação, completamente distinto. Será uma síndrome de distorção da realidade? Críticos choram pelo desempregado na tela, mas f…-se os que vão perdendo os empregos ao redor, é isso? Ladrões de Bicicletas, Umberto D estarão virando peças de museu? Na ficção de Loach (e Paul Laverty, seu eterno roteirista), ‘Dan’ vive o que se pode descrever como situação surreal. A profissional de saúde, indicada pelo Estado para acompanhar o caso, diz que ele não tem direito ao seguro desemprego e deve voltar ao trabalho. Dan bem que gostaria, mas o cardiologista, também integrado ao sistema de saúde, não lhe dá alta. Para complicar, aos 60 anos, Dan é o tipo do profissional que sabe tudo sobre sua área de trabalho, mas tropeça na internet, na hora de preencher os requerimentos. Viúvo, ele arranja uma amiga, mãe de dois filhos. Pode ir tirando o sexo da cabeça. O compartimento é outro. Afeto, apoio. Ela também tenta fazer valer seus direitos. Descobre que não tem. Prostitui-se, e rapidamente enche os bolsos, 300 libras por uma ‘jornada’. Loach e Laverty não apenas não mudaram seu discurso como o radicalizaram. Eu, Daniel Blake é sobre mais uma vítima do sistema social, do Estado. Loach continuará sendo negado por muita gente como um autor utópico, sem pé na modernidade. Difícil é não sentir a veracidade do discurso de Dan, quando diz que não é cachorro e não está pedindo nada mais que o reconhecimento de seus direitos de cidadão.