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Cannes (10)/Minha primeira decepção

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2016 | 10h01

CANNES – Tive hoje minha primeira decepção, e com um filme pelo qual tinha grande expectativa, confesso. Cahiers du Cinema e Positif, rivais tradicionais, irmanaram-se nos elogios ao novo Bruno Dumont. Depois que Le P1’tit Quinquin foi recusado na seleção oficial e estourou na Quinzena, tenho a impressão de que o selecionador, Thierry Frémaux, nem se deu ao trabalho de ver e já foi aceitando Ma Loute. Se tivesse visto, acho que teria despachado o filme para a Quinzena, de novo, e ele que estourasse por lá. Falo por mim, claro, porque sentei-me entre dois sujeitos que passaram o filme rindo escandalosamente. Achei Ma Loute, na mesma vertente de comédia policial de Quinquin, um laborioso exercício de humor, só que pouco, ou nada, engraçado. Burgueses caricatos (Fabrice Luchini, Valeria Bruni Tedeschi, Juliette Binoche) chegam numa praia do Norte da França, por volta de 1910. O herói local é um pescador que resgatou do mar um ou dois banhistas que se afogavam. É o pai de Ma Loute. O filme confirma a preferência do autor por personagens excêntricos e situações bizarras, mas também pode ser o contrário, e não faz diferença nenhuma. Há uma dupla de inspetores, meio Gordo e o Magro, que investiga o desaparecimento de pessoas na praia. Ma Loute é o manifesto antropofágico de Dumont. A família de pescadores é canibal. Está comendo os turistas burgueses. O garoto é um típico personagem ‘dumontiano’. Fisicamente esquisito, envolve-se com um jovem da cidade que, um século atrás, já vive a confusão de gênero, vestindo-se como mulher que, eventualmente, se veste como homem. Confesso que fiz todo o esforço para gostar, mas não consegui, No café, encontrei-me com o Carlos Eduardo, de Londrina, que teve o mesmo desapontamento. Vi parte da coletiva e os atores estavam em êxtase. Contaram como foi divertido e estimulante fazer o filme. Gostaria que também tivesse sido – para mim – vê-lo.