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Calma que eu chego lá, à origem do mundo

Luiz Carlos Merten

24 de junho de 2017 | 09h32

Sábado, 24. Meu último post foi do dia 19. Tenho tido tanta coisa no jornal – no impresso e no online – que ando negligenciando o blog. Para retomar, anuncio que esse (post) vai ser enorme. Mas tem mais – devo ter relatado que, no fim de semana passado, precisei atendimento hospitalar. Deveria estar em Ouro Preto, no Cine OP, mas desisti. Estou em plena crise de labirintite, medicado, mas principalmente ao acordar, minha cabeça não pára de girar. Tenho de ouvir as piadas quanto a estar ‘tonto’. Gostaria de ter ido ao Cine OP, mas as ladeiras de Ouro Preto e o piso irregular das ruas não eram recomendáveis. Estou indo, em princípio, ao Cine PE, na terça, 27, mas ainda preciso melhorar, senão a própria viagem de avião não é recomendável. Há um boicote perfeitamente compreensível ao Festival do Recife. Ao longo do ano, e com exceções, claro, a categoria cinematográfica não tem feito outra coisa senão denunciar o golpe e gritar ‘Fora, Temer’. Face a tudo o que vem sendo dito sobre o presidente, o mote para o impeachment de Dilma Roussef – as pedaladas – parece bem frágil, e era o que dizia, na época, o ex-ministro (e presidente) do STF, Joaquim Barbosa. E aí Gilmar Mendes ignorou o óbvio com a justificativa de que não se destitui presidentes a torto e a direito. A torto, não, mas a direito, sim. É o ó. Alfredo Bertini não só apoiou como participou desse governo, como secretário do Audiovisual. Em Gramado e Brasília, era ele chegar e as vaias começavam. Sandra Bertini recebeu, debaixo de vaias, a homenagem de Gramado ao Cine PE, no ano passado. Achei-a corajosa, guerreira. Me disse, o rosto duro – ela que normalmente é tão afável -, que ia lutar, não ia deixar seu festival morrer. Recebi e-mails me exortando a não ir, mas como jornalista não posso me furtar a acompanhar o que vai ocorrer. E, com o festival acontecendo, com júri e tudo, alguém vai ganhar a Calunga. Para quem acompanhou criticamente as edições anteriores me parece absurdo permanecer à margem. Pedradas não faltarão. Tenho um monte de matérias nas edições de sábado e domingo do impresso. No sábado, a entrevista com Michel Reilhac, feita durante o Festival Varilux, em que o especialista francês em VR anuncia a massificação da produção em realidade virtual a partir dos novos modelos de óculos que a parceria entre Facebook e Oculus deve produzir nos próximos dois ou três anos. Achei fascinante a explicação que ele me deu sobre o processo imersivo da VR, a filmagem em 360 graus, que só pode ser feita com muitas câmeras (e mais ainda preparação). Não só a captação da imagem e som. A montagem e pós-produção também têm de ser feitas em equipamentos e laboratórios especiais. É um novo mundo no qual essas gigantes estão investindo bi-lhões. Para o domingo, tenho as entrevistas com François Ozon (Frantz), Alain Guiraudie (Na Vertical) e Larissa Manoela (Meus 15 Anos). Podem me chamar de louco, mas não discrimino ninguém. Fui pautado para entrevistar Larissa e o fiz com prazer. Nesta semana, entrevistei também Leandra Leal e Rogéria – por Divinas Divas, que será um dos meus grandes filmes do ano. O espaço reservado aos franceses não era tão grande, mas espero ter dado conta da complexidade dos filmes, e autores. Com Guiraudie, após o impactante Um Estranho no Lago, discuti muito os planos de vagina do novo filme. A origem do mundo? Comentamos até a quantidade de pelos, maior no quadro de Gustave Courbet, mas achei que era demais para um público conservador como o do Estado. Sobre o Ozon, lamento haver suprimido a discussão sobre o visual do filme, o preto e branco, que Ozon utiliza pela primeira vez – em 30 anos de carreira -, e a cor que entra para ressaltar a emoção. Foi muito interessante ouvir a explicação do diretor, dizendo que filmou tudo em cores, mas já com uma iluminação especial nas cenas (a maioria) que ele sabia que, no laboratório, seriam vertidas para PB. Ele contou como, à medida que a cor esmaecia e virava preto e branco, sua impressão era de ver ressurgir a estética de um Max Ophuls, o que não foi intencional. “O preto e branco reativa nossas memórias de cinéfilos”, foi sua citação textual. E o ator… Conhecendo-se o perfil do diretor, o cara que vai colocar flores no túmulo do soldado morto, ainda mais interpretado por um ator afetado/efeminado como Pierre Niney, aponta imediatamente para a homossexualidade, mas não é o caso. Não é? O próprio Ozon ressaltou – ele mora com a mãe, acomoda-se numa ligação tranquila. O próprio autor da peça, Maurice Rostand, era um solitário que viveu a vida toda com a mãe. Há nisso aí um subtexto que aponta para a emancipação da mulher no filme. Falamos também sobre L’Amant Double, que vi em Cannes. Se Frantz é casto – nem um beijinho -, O Amante é uma putaria. Já começa com um plano gigantesco de vagina. Marina Vacth se envolve com seu psicanalista e descobre que ele tem um duplo – um irmão gêmeo – e é com esse outro que libera suas fantasias, em cenas bem ousadas. Ozon já me disse, várias vezes, que gosta de fazer seus filmes uns contra os outros. Falei sobre os atores. Pierre Niney, que nunca esteve melhor. Jérémie Renier, que me surpreendeu por sua virilidade, ele que é tão ‘mole’ nos filmes dos irmãos Dardenne. Ozon me disse, sem modéstia, que a diferença está nos papeis. Sempre viu Jérémie como um ator de composição limitado pelo naturalismo dos Dardenne. Muito interessante mesmo.

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