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Cahiers e o retorno da mulher aranha

Luiz Carlos Merten

19 Novembro 2016 | 09h24

Estou em casa. Sábado pelas manhã, um horário que adoro postar. Estou fazendo hora para ir ao laboratório – 12 horas de jejum para os exames de sangue. Tantos dias sem beber, sem ejacular, os cuidados de sempre. Não conto para… Chocar não é a palavra. Temos um noivo plano de saúde no jornal daqueles bem restritivos. Dava um documentário de denúncia no estilo de Michael Moore. Lembram-se do cartaz de SickO? MM na fila de espera, entre dois esqueletos.No filme, os heróis do 11 de Setembro, que contraíram doenças dos pulmões aspirando o pó da destruição, eram rejeitados pelos planos de saúde habituais. Em Miami, MM os colocava numa lancha e levava para Cuba, onde recebiam pronto atendimento. Na volta, ainda traziam os medicamentos. A provocação de Michael Moore. Imagino o executivo ou executiva que remanejou os acordos no jornal. Cumprimentos pela ‘economia’. Mas também… Antes do jantar, e jantei tarde – tinha um monte de matérias nas edições de sábado e domingo -, por isso, agora, espero, passei pela banca da Paulista e comprei um monte de revistas. A Cahiers de setembro. La Rentrée Cinéma. Como sempre, na volta das férias de verão do hemisfério Norte, começa a temporada deles. Cahiers seleciona os maiores filmes – Toni Erdmann, Aquarius, É Apenas o Fim do Mundo, Na Vertical. Toni e Aquarius também estão na capa de Film Comment, a edição de setembro/outubro, como os melhores da temporada em Nova York. Altos elogios a Kleber Mendonça Filho e a Sonia Braga – Le retour de la femme araignée. Há uma bela entrevista dela, falando de cinema, claro, e da situação brasileira. Quanto aos outros dois, os de Xavier Dolan e Alain Guiraudie, estão no Mix Brasil. Não entendo a rejeição de parte da crítica brasileira a Dolan. Quer dizer, até entendo. Jovem, bonito, talentoso e pop. O bom de Dolan é que, presumivelmente, ele vai viver bastante. Terá tempo de ser aceito, como Paul Verhoeven, que foi crucificado por filmes como Tropas Estelas e Showgirls e hoje faz sensação com Elle. Há um anúncio, meia página inteira. Showgirls voltou aos cinemas em 14 de setembro, na França. “Um dos maiores filmes americanos”, Jacques Rivette. E é, só que costumava, costuma ser tratado a pontapés. Nada me interessa tanto quanto a volatilidade de conceitos do cinema. Sua impureza. Quem encerra o cinema numa forma/fórmula e nega todo o resto, em geral não sobrevive.