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Cacoyannis e as Troianas, como classificar o inclassificável?

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2019 | 22h02

Nunca fui amigo de Daniel Piza, mas me lembro muito dele. Se depender de mim, jamais será esquecido. Carrego meus mortos, amigos queridos – Tuio Becker, Sérgio Moita. Estranho eu começar esse post desse jeito. Fiz minha físio e fui pela manhã ao jornal. Fiz um monte de matérias e aí fui à feijoada na casa de Leila Reis. Era o aniversário da filha dela, a Lua. Às vezes, a vida afasta a gente das pessoas, mas nada como o reencontro, quando bate. Leila, a irmã, Leida, as filhas, Lua e Ana Terra, a sobrinha, Elaine. É tão bom, tão reconfortante quando, a despeito da distância, a gente vê que algo ficou. O afeto. Saí da casa da Leila e corri ao CineSesc porque queria ver As Troianas na mostra de cinema grego. O post começou meio torto porque quero chegar a Paulo Francis. Nunca o conheci, mas fui seu leitor. O Diário da Corte. Saudade dos tempos em que era ele, e não e embusteiro rancoroso da Virgínia. A erudição de Paulo Francis, as sacadas de Paulo Francis. Lembrei-me muito dele assistindo ao filme de Michael Cacoyannis. PF, não a Polícia Federal, Deus nos livre, mas Paulo Francis, implicava com o filme por causa dos sotaques. Katharine Hepburn, Hécuba, Vanessa Redgrave, Andrômaca, Irene Papas, Helena. E a Genevieve Bujold. As mulheres de Troia. Derrotadas, escravizadas. Andrômaca, de cujos braços o filho é arrancado, por ordem de Ulisses, para ser lançado do alto das muralhas. O horror, o horror. Entendo perfeitamente a crítica de Paulo Francis, mas é inenarrável o prazer com que revi As Troianas. Eurípides! Katharine Hepburn! Ela ganhou quatro vezes o Oscar, um recorde, mas eu, pelo menos, sou capaz de jurar que perdeu, ou nem foi selecionada, quando mais merecia – pelo Cacoyannis e por Longa Jornada Noite Adentro, que Sidney Lumet adaptou de Eugene O’Neill. O filme é o episódio intermediário de uma trilogia que Cacoyannis dedicou à tragédia grega. Electra, As Troianas, Ifigênia. Nos anos 1950, ninguém filmou a tristeza dos bairros pobres de Atenas como ele – Stella, a mulher de todos, Melina Mercouri como a Carmem grega. Nos 60, Cacoyannis conseguiu o prodígio de transformar Anthony Quinn, um mexicano, no mais grego dos gregos – Zorba. Cacoyannis sempre foi inclassificável. Acho que, há mais de 50 anos, desisti de seguir teorias estabelecidas de cinema porque elas me fariam ter de desistir de autores como ele. Cacoyannis morreu em 2011, aos 89 anos. Sempre lamentei nunca haver assistido a seu último filme, um Chekhov – O Jardim das Cerejeiras, de 1999.