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Ca…rralho!

Luiz Carlos Merten

05 de dezembro de 2012 | 20h35

Que fique logo claro. O título do post não é provocação, é transcrição. Duas vezes ontem à noite, Madonna perguntou ao público do Morumbi – ‘Do you understand me, Sao Paulo?’ E, nas duas, acrescentou, ‘Carralho’, com dois Rs. Muito provavelmente, se fosse citar a maior, ou o maior performer de todos os tempos, o resultado poderia ser outro. Mas não tenho dúvidas de que a maior performer viva, e atuante, é Madonna. Donde, fica claro que ontem fui ver o show dela ‘MDNA’, no Morumbi. Se twitasse, vocês teriam me acompanhado, passo a passo.  Cheguei no estádio às 8 e pouco, arranjei um lugar na frente do palco e fiquei por ali. Veio o tal Gui não sei das quantas, com sua música eletrônica e eu não sou muito fã de bate-estaca. Minha filha, a Lúcia, foi com amigas e estava em outra parte. Teria ficado sozinho, embora ninguém tenha ficado sozinho naquela explosão que foi o show, mas felizmente encontrei o diretor de ‘A Casa de Alice’ e ficamos, o Chico e eu, conversando sobre Madonna, tecnologia e comportamento. A par de ter sido um grande espetáculo artístico/tecnológico – ouso dizer, com meu gosto para frases retumbantes, que a missa profana do comerço sde constituiu no melhor filme do ano, até agora (e 2012 está acabando). Madonna é poderosa. Mistura show e cinema com a segurança de quem possui conceitos sólidos sobre ambos. O filme dela, ‘W/E’, era muito bom, mas eu nem vou me cansar em defendê-lo. Já tentei fazer isso, mas só o que encontrei foram risos de escárnio de gente que só pensa em termos de alta cultura, mas pratica um pensamento de segunda mão, pois não consegue absorver o diálogo entre essa alta cultura e o pop, e é isso que interessa, pelko menos para quem vive o aqui e o agora. Entrevistei Júlio Bressane para a matéria de abertura da Semana dos Realizadores em São Paulo – seu longa ‘Rua Apérana 52’ é uma das atrações -, e ele me disse uma coisa interessante. Como o cinema de Bressane tem sido alvo de inúmeras retrospectivas e homenagens – Porto, Lisboa, Perúgia, Siracusa, a próxima será Buenos Aires -, perguntei ao mais erudito dos autores brasdileiros se o olhar dos outros lhe traz alguma coisa nova, que ele não tenha pensado nem projetado, sobre sua obra. Bressane me disse que, em geral, o que recebe de volta segue as coordenadas que ele próprio traçou como ida e, se alguém possui esse tal pensamento original, deve guardar para si, pois ele não aparece. Achei deveras instrutivo e tenmho a impressãsop de que, como ninguém fala com Madonna dessas coisas, ela não dá a bússola e os ‘simplórios’ da crítica ficam sewm norte. Madonna é f… Seus shows sempre foram grandes espetáculos, nos quais ela era acusada de não cantar, fazendo apenas a simulação. Madonna deve ter pensado – ah é, Lady Gaga, me aguarde. ‘MDNA’ abre-se numa catedral virtual – não há cenários físicos -, onde ela canta e dança com padres (oficiantes) de vermelho, que se despem e tudo termina em perseguição, violência, tiroteio – e destruição dos signos religiosos. A Mãe, o Filho, Madonna. A cruz, o revólver. Seria muito interessante encomendar a um desses psicanalistas de plantão uma análise ‘freudiana’ do evento. O restante do espetáculo não me atraiu tanto, embora eu não tenha desgrudado o olho, curtindo o vocal – e as danças. Madonna, aos 54 anos, tem uma energia… Que adjetivo usar? Seus dançarinos trazem a street dance, que tanto me encanta nas tardes de sábado na Galeria Olido, para o palco gigantesco e o fazem com uma energia louca, em cujo pique ela entra com entusiasmo. Gostar ou não vira secundário, o importante é o reconhecimento de que há, ali, algo especial. Eu, por exemplo, não gosto de Michael Haneke, salvo uma ou outra exceção (‘A Fita Branca’). Chico Teixeira me perguntou o que havia achado de ‘Amor’, que acaba de ganhar o prêmio da crítica de Nova York (e deve ir para o Oscar). Dei-lhe a resposta que vale para qualquer arte e artista. Posso até reconhecer sua importância (a de Haneke, em termos), mas não consigo acreditar na sua sinceridade. Quando Madonna se investe de signos de violência e ataca a iconografia da Igreja, não é mera provocação. Essa mulher não adotou o codinome de Madonna por acaso. A destruição de padrões religiosos leva à liberação dos costumes (e comportamentos). Vale tudo – gay, straight, men, women, black and white = one soul, uma só alma, como ela proclama. Seu público segue o mandamento – amai-vos uns sobre os outros. O troféu Gay Caneca vai para o loirinho sem camisa que encoxava o namorado em frente ao palco, num clima de hedonismo de fazer as bacantes de Zé Celso babarem. O hedonismo sai da ‘oficina’ e vai para o estádio – justiça seja feita a Zé Celso, ele também põe seu bloco na rua. Chico Teixeira, com quem eu comentava tudo, bem poderia ter levado sua câmera para fazer um grande (e belo) documentário. Assunto não lhe teria faltado.

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