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Breve elegia a Rubem Fonseca

Luiz Carlos Merten

15 de abril de 2020 | 23h52

Nunca fui o maior leitor de Rubem Fonseca, mas o que li é suficiente para que escreva sobre sua relação com o audiovisual, o cinema como a televisão. Não, não vou falar dos filmes de David Neves (Lúcia McCartney, que depois virou série dirigida pelo filho de Rubem, José Henrique Fonseca), nem de Flávio Tambellini (Bufo e Spallanzani). Rubem Fonseca teve todos aqueles personagens de ação – policiais, investigadores, advogados -, mas o mais interessante sempre foi sua escrita. O olhar sobre o cotidiano, as frases curtas, objetivas, a ausência de medo do palavrão e a característica mais marcante de todas. Ele escrevia como quem corta, num processo de montagem das palavras, dos parágrafos, dos capítulos – dos livros. O dia está terminando. Foi bem intenso para mim. Entrevistei Karim Aïnouz, Lília Cabral – o telefone fixo tem sido uma importante ferramenta de trabalho, em casa. Não paro de fazer entrevistas. Acrescentei mais três textos à minha série de Clássicos do Dia. Yasujiro Ozu, Tokyo Monogatari, ou Viagem a Tóquio, e os nacionais. Selva Trágica, Deus e o Diabo na Terra do Sol. É incrível como as lembranças fluem. Lembro-me de haver assistido algumas vezes ao Roberto Farias, lá atrás, nos anos 1960, uma delas no antigo Cine Presidente, em Porto Alegre. Ainda era jovem, tinha menos de 20 anos. Fui com minha irmã Marlene e o Mário, meu cunhado. O Presidente era um cinema que funcionava como auditório, e no qual Maurício Sobrinho apresentava seu programa, antes de virar Maurício Sirotsky, o poderoso dono do Grupo RBS, no Rio Grande do Sul. Muitas das minhas lembranças musicais estão ligadas ao Programa Maurício Sobrinho. Elis Regina, Agostinho dos Santos, Elsa Laranjeira, Leny Everson, as irmãs Batista, Ivon Cury, Elsa Soares – a lista seria interminável. Lembro-me até do teor da conversa com o Mário, depois de vermos Selva Trágica. O trabalho escravo do homem, a utilização da mulher como objeto, por meio da prostituição. O ‘meu’ Roberto Farias viscontiano. Sempre vi o filme assim. Tergiverso, mas volto a Rubem Fonseca. Confesso que fico chocado. Não votei nem nunca votaria no coiso, mas, para o bem e para o mal – para o mal -, ele é o presidente. Sabemos todo dia o que estão dizendo e pensando os presidentes da França, da Rússia, dos EUA. O que pensam os governantes da Espanha, da Itália, da Nova Zelândia, da Inglaterra. Bolsonaro tem sido o grande ausente nesses tempos de Covid 19, o que chega a ser um consolo, porque quando dá as caras é para desafiar a ciência, a lógica, o bom senso. Até aí, sem novidade. É o estilo dele. Mas me choca que a morte de um personagem como Rubem Fonseca – e de Morais Moreira, que partiu no outro dia – não mereçam uma palavra do presidente dos brasileiros, pelo menos não vi nem ouvi nada nos noticiários. Mas entendo. De Rubem Fonseca ele não deve ter nem ouvido falar. É sofisticado demais para o seu gosto. É um presidente que detesta a cultura e não pára de dar provas disso. Vivemos tempos sombrios, mas eu, às vezes, tenho a impressão de haver ingressado numa idade das trevas.

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