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Brett Halsey, Riccardo Freda, Era Uma Vez… em Cinecittà

Luiz Carlos Merten

02 de outubro de 2019 | 15h46

Nunca sei a quem interessam minhas conversas, nem quantos leitores tenho, mas sempre tenho gente me acompanhando e quando reencontro pessoas elas comentam o que andei vendo, fazendo, e que souberam através do blog. Para o fim de semana, mais exatamente no sábado, 28, a pauteira do Caderno, Eliana Souza, me havia encomendado para o online um material sobre os 85 anos de Brigitte Bardot e os 95 de Marcello Mastroianni. Um spin-off veio para cá, com aquele título, BB. MM e GG, de Grande Godard. É em parte sobre isso que quero falar, porque desde que redigi o texto sobre Marcello uma coisa ficou martelando na minha cabeça. Ele participou de muitos filmes fazendo pontas, mas seu primeiro papel importante foi com Riccardo Freda, em Gli Miserabili, de 1948. No mesmo ano, com Luchino Visconti, uma montagem de Shakespeare, Muito Barulho por Nada, profissonalizou-se como ator. Mas o que interessa, me interessa, é Freda. Sempre fui fascinado por esses autores considerados ‘pequenos’. Freda, Vittorio Cottafavi. Freda filmou no Brasil O Guarani e também com Anselmo Duarte. Muito conversei sobre ele com meu biografado na Coleção Aplauso. Fizeram, juntos O Caçula do Barulho. Freda ligou-se a uma ex-Miss Itália, mulher de grande beleza, Gianna Maria Canale, a quem dirigiu muitas vezes, inclusive fazendo dela sua Teodora, a imperatriz escrava de Bizâncio. Vi muito os pepluns de Freda, mas se tenho pensado nele é por dois filmes de ação que fez com Brett Halsey nos anos 1960 – As Sete Espadas do Vingador, em 1962, e O Magnífico Herói, em 1964. Para certas coisas, tenho uma memória de ferro. Brett era neto do comandante militar das forças norte-americanas no Pacífico, durante a 2.ª Guerra. Só isso e a bela estampa lhe garantiram uma carreira no cinema industrial italiano dos anos 1960. Casou-se com Luciana Paluzzi, com um ex-Miss Alemanha e, depois, mais duas ou três vezes. Cinecittà era uma festa para aqueles gringos que chegavam disparando com suas pistolas – Quentin Tarantino debruça-se parcialmente sobre o período em Era Uma Vez… Em Hollywood. Hollywood sull Tevere, Hollywood no Tibre. Em meados daquela década, a revista Présence du Cinéma dedicou um número inteiro a John Ford, que eu pude adquirir mais tarde, acho que num sebo de Montevidéu ou Buenos Aires. A única crítica de filme do mês é sobre Freda, As Sete Espadas, e estou seguro de que o crítico, Jacques Lourcelles, põe o filme nas nuvens e, em seguida, pergunta-se por que escrever sobre Freda? Diz que ele, como autor, ao contrário de Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, não precisa ser defendido. Lourcelles cita três cenas, três momentos de As Sete Espadas. Brett Halsey olha por uma janela, avalia se é resistente o colchão da cama em que, daqui a pouco, fará sexo, e finalmente empunha a espadada. numa cena de ação. E o crítico pergunta-se mais ou menos isso – em que outro filme três cenas conseguem resumir dessa maneira a extensão da experiência humana? Lembro-me de uma cena em O Eclipse, de Antonioni, que até citei no debate com Inácio Araújo sobre O Passageiro – Profissão: Repórter. Monica Vitti veste-se de africana e dança selvagemente, até se ver refletida num espelho. Percebe o ridículo. O homem, a mulher modernos perderam o sentido do primitivo, a crítica de Antonioni. Esse primitivo que está em Riccardo Freda e sobre o qual, como artista, ele reflete.

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