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Brasileiros, brava gente que resiste, de Fábio Meira a Nelson Pereira

Luiz Carlos Merten

23 de setembro de 2017 | 12h25

É de cortar os pulsos. Voltei à padaria para um café e encontrei o Fábio Meira, que é meu vizinho numa vilinha aqui perto (atravesso-a todo dia para chegar à Trigonella). Quem não sabe quem é o Fábio não frequenta esse blog. Fábio é diretor e roteirista de As Duas Irenes, um dos melhores filmes brasileiros do ano. Informou-me que as Irenes está, no acumulado, com 3 mil espectadores (menos!). Socorro, aiuto! Tenho minha interpretação para esse momento de baixos números do cinema brasileiro, e tem a ver com o atual estado de coisas. É uma rejeição ao País. Essa gente enche as ruas de bandeiras, mas, no fundo, odeia o Brasil, sonha com os EUA (Miami!) e está destruindo nossa identidade, até a sócio-política-econômica, em nome de uma modernidade que só vai favorecer os de sempre. Querem extirpar os últimos anos e voltar… Aos mesmos, que se travestem, para fingir que são outros. Estou na mão com o Volume 1 da Coleção Nelson Pereira dos Santos, que cobre os anos de 1956 a 67. Falta um filme do começo da carreira de Nelson, e é justamente o primeiro, Rio 40 Graus, de 1955. O volume contempla Rio Zona Norte, Mandacaru Vermelho, Boca de Ouro, Vidas Secas e El Justicero, que muita gente chama de Rio Zona Sul. É o primeiro de quatro e a coleção vai abranger toda a sua obra entre 1956 e 2012. Nelson, que hoje está na Academia Brasileira de Letras, virou uma instituição do cinema brasileiro. Para quem começou dando murro em ponta de faca, enfrentando censura, a definição pode parecer ofensiva, mas não é essa a intenção. Nelson foi, e agora mais discreto, quase nonagenário – nasceu em 1928 -, continua sendo referência. Pertence à resistência do cinema brasileiro, fez filmes que estão no imaginário coletivo e ajudaram a definir nossa identidade na tela. O morro de Grande Otelo e Zé Kéti, o nordestern, o vestido de bolinhas de Odete Lara naquele outro Nelson, o Rodrigues, Fabiano, Sia Vitória, os meninos e Baleia, e o playboy, filho de general (em plena ditadura!), a primeira década prodigiosa do cineasta oferece uma súmula de sua evolução, ajudando a entender como o ex-jornalista (no Rio) e estagiário do IDHEC (em Paris) virou um dos fundadores do Cinema Novo. Conta a lenda que Nelson se ofereceu para montar Barravento, ajudando a colocar ordem na torrente de imagens de Glauber. Depois de flertar com o neorrealismo, foi ao Nordeste, por volta de 1960, para fazer Vidas Secas. Mas havia chovido e Nelson encontrou outro sertão. No livro da Coleção Aplauso, Carlos Coimbra me contou como a chuva muda a paisagem e, de um dia para outro, toda aquela secura vira flores. Nelson improvisou Mandacaru Vermelho e até se colocou na pele do protagonista – era bonito, como Tom Jobim, quando jovem, esse cabra. Quando finalmente encontrou a paisagem certa, surgiu sua primeira adaptação de Graciliano Ramos. Nunca esclareci com ele, nas vezes em que nos encontramos, porque, se não for verdade, prefiro a lenda, mas Nelson filmou Vidas Secas sem roteiro, com o livro anotado na mão. O som daquela carreta, o cachimbo na boca que singulariza Maria Ribeiro (a primeira), a morte de Baleia, posso ser eu contra o mundo, mas Vidas Secas lidera o ranking da minha representação do sertão pelo Cinema Novo, acima de Deus e o Diabo (apesar daquela trilha) e Os Fuzis. Como geração apaixonada pelo Brasil, os cinenovistas queriam mudar o Brasil e o mundo com seus filmes. Colocaram o povo brasileiro na tela, mas não na plateia. Nelson reflete sobre isso num filme que estará em outro volume da sua coleção – Cinema de Lágrimas, de 1995, sobre o melodrama latino-americano. Em vários momentos de sua trajetória, Nelson enfrentou essa tragédia cíclica que assola nosso cinema – ser estrangeiro na própria terra. O momento mítico, em que o sertão virou mar (de gente) foi no filme sobre Lula, o final no estádio, que eu vou defender até contra o ex-presidente, mas ali já havia um dado da equação – o homem dividido, entre mãe guerreira e pai ausente. São tantas imagens que cruzam minha cabeça. Fome de Amor, que não deixa de ser o Terra em Transe de Nelson, a antropofagia de Como Era Gostoso o Meu Francês, o mundo popular de Amuleto de Ogum e A Estrada da Vida, o retorno a Graciliano, com Memórias do Cárcere. Grande Nelson. Eu te saúdo, velho guerreiro.

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