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Bong Joon-ho takes over – assume!

Luiz Carlos Merten

18 de fevereiro de 2020 | 19h35

LISBOA – Alugamos um carro e fomos hoje, com a Lúcia dirigindo, a Óbidos, Alcobaça e Batalha. Não houve uma só vez que tenha vindo a Portugal, e foram algumas, sem que tenha visitado o túmulo de Inês de Castro e o Mosteiro da Batalha. É um dos patrimônios da humanidade. Estendemos e fomos também a Nazaré, onde a rebentação estava forte e as ondas atingiam alturas inacreditáveis. De volta a Lisboa, jantamos no Blue, onde fomos atendidos fidalgamente pelo Saif. Não fui criado acreditando em reencarnação, nem carma, mas às vezes me pergunto. A gente pode viver anos com uma pessoa a não conhecê-la. E, por outro lado, basta um encontro, breve que seja, para descobrir a empatia com quem, provavelmente, nunca nos reencontraremos. Estranho, não? Embarco amanhã pela manhã para Berlim, onde, na quinta, começa o festival. Dóris e Lúcia permanecem em Portugal até sábado, devendo chegar no domingo, 23, a São Paulo. Será, em pleno domingo de carnaval, o aniversário da Lu. Comprei ontem, na livraria do Corte Inglês, algumas revistas de cinema – Cahiers, Positif, Sight and Sound, Total Film. Na Sight and Sound de março, Bong Joon-ho takes over. O diretor de Parasita foi convidado a editar a revista do mês. Bong começa listando 20 autores emergentes que serão, para ele, pivotais nos próximos 20 anos. 20/20 – Ali Abbasi, Ari Aster, Bi Gari, Jayro Bustamante, Mati Diop, Robert Eggers, Rose Glas, Hamaguchi Ryusuke, Alma Har’el, Kirsten Johnson, Jennifer Kent. Oliver Laxe, Francis Lee, Pietro Marcello, David Robert Mitchell, Jordan Peele, Jennifer Reeder, Alice Rohrwacher, Yoon Gaeun, Chloë Zhao. Depois, numa extensa reportagem de várias páginas, Bong revisita suas obsessões, nostalgia, descobertas, paga tributo a seu mestre – Kim Kiyoung, de The Housemaid, que já havia citado na entrevista que fiz com ele para o Estado – e até revisita o cinema inglês de sua preferência. Alguma dúvida de que é o terror da Hammer, com seu diretor cult, Terence Fisher? Sight and Sound reedita a lista de dez melhores filmes de todos os tempos, que Bong fez para a própria revista em 2012.
A City of Sadness, de Hou Hsiao-hsien
Cure, de Kiyoshi Kurosawa
Fargo, de Joel e Ethan Coen
The Housemaid, de Kim Kiyoung
Psicose, de Alfred Hitchcock
Touro Indomável, de Martin Scorsese
A Marca da Maldade, de Orson Welles
A Vingança É Minha, de Shohei Imamura
O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot
Zodíaco, de David Fincher
Pergunto-me se não estarei perdendo o trem da história? Acho da maior importância a vitória acachapante de Parasita no Oscar. Mas me pergunto – 1) se não estarei sendo radical demais, se disser que gosto mais do Bong anterior, do seu cinema de gênero; e 2) por que m… toda essa consagração não veio para outro sul-coreano, o Lee Chang-dong de Em Chamas? Foi meu melhor filme de 2018, no jornal, no blog. Por mais admiração que tenha por Parasita, não consigo achar tão grande.