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Bolognini e o desejo

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2015 | 22h36

Prometi, num post anterior, voltar a Mauro Bolognini e a Senilità/Desejo Que Atormenta, que o diretor adaptou do romance de Italo Svevo e está saindo em DVD pela Cult Classic. Não sei se honro o compromisso comigo mesmo ou se atropelo Bolognini para falar de outros italianos – os mestres de horror, num lançamento da Versátil. Mario Bava, Dario Argento, Michele Soavi, Lucio Fulci – e George A Romero, que, embora seja um autor norte-americano, andou filmando na Itália. O horror fica para depois. Vou de Bolognini. Na sua grande fase, que cobre os anos 1960 e o princípio dos 70, Bolognini falou sempre dos mesmos temas – a impotência figurada, às vezes real, do homem e a mi(s)tificação da mulher -, curiosamente os temas que fizeram a glória de um dos maiores de Hollywood, Joseph L. Mankiewicz. Mas enquanto o cinema de Mankiewicz privilegia a palavra e propõe sempre um teatro – a primazia da representação sobre a vida -, Bolognini, nas suas diversas fases, nas comédias do neo-realismo róseo (Os Jovens Maridos e Arrangiatevi/A Casa Intolerante) e nos suntuosos melodramas de época, foi sempre um decadentista langoroso e mórbido, não importa que estivesse falando do comportamento sexual do macho siciliano (O Belo Antônio), de prostitutas e seus rufiões (A Longa Noite de Loucuras), da tragédia de um desempregado (Um Dia de Enlouquecer), de uma cortesã em Florença, na virada do século 19 para o 20 (Caminho Amargo) ou de um burguês consumido pelo desejo por uma mulher que precipita sua senilidade precoce (Desejo Que Atormenta). O romance de Svevo conta a história de dois triângulos superpostos e nos quais o ciúme provoca auto-ilusão e engano. Angelina/Claudia Cardinale entra na vida de Emilio/Tony Franciosa para desestabilizar a precária segurança do aspirante a burguês. Ele é fraco, sofredor, amoral e manipulável. Diz que quer salvar a mulher da decadência moral e da condenação social, mas só quer tirar proveito. Vira um joguete para a belíssima Angelina, que vai desdenhar dele. Emilio e a irmã, Betsy Blair, são reprimidos sexualmente e numa cena ele a vê, alienada, andando feito louca pela rua, perdendo o contato com a realidade. É sempre o conflito visceral nos filmes de Bolognini – a fragilidade dos sonhos e o choque com a realidade. Sempre achei injusto que os méritos de O Belo Antônio, de A Longa Noite e Um Dia de Enlouquecer sejam computados a Pier-Paolo Pasolini, que assinava, ou co-assinava, os roteiros. Durante muito tempo, Bolognini foi um fantasma para a minha geração, o Visconti dos pobres. Além de decadentista. era maneirista. Em Metello, a classe operária não vai para o paraíso porque, ao contrário das palavras de ordem, o povo não é unido. Não? Só um artista de alma proletária poderia criar o desfecho de A Casa Intolerante. Em plena crise da moradia na Itália – A Casa Intolerante é contemporâneo de O Teto, de Vittorio De Sica -, Totò aluga um antigo bordel. Os velhos frequentadores passam a assediar sua filha, como se fosse p… Na hora H, a mãe de família Laura Adani expulsa todo mundo de casa. Seu discurso é grandioso. Aquela é uma casa decente, de gente trabalhadora. Arrangiatevi/Arranjem-se! Jean Tulard observa, com razão, que o gosto de antiquário de Bolognini pelos bibelôs, quadros e tapeçarias cria ambientes opressivos e sufocantes, mas ele não perde o foco. O dinheiro move o mundo em La Notte Brava e Una Giornata Balorda. A nota de dinheiro termina amassada e jogada no lixo, no fim da noite de loucuras. Jean Sorel, que precisa de dinheiro para montar uma barraca na feira, prostitui-se – o dinheiro que Lea Massari lhe dá não representa nada para ela. A herança dos Ferramonti desintegra a família, A Grande Burguesia não está com nada. Bolognini é sempre muito melhor do que vale sua reputação.